São como fragmentos que, penso eu, poderiam formar um todo. Chego a enxergar uma lógica, mas me sinto incapaz de transformar isso tudo em um texto. Não é preguiça, garanto.

E por achar que esses apontamentos fazem algum sentido, e pensando que talvez podem servir a alguém – e quem sabe esse alguém até se anime a dar um corpo a tudo isso –, abaixo os transcrevo.

“Sábio é aquele que se contenta com o espetáculo do mundo” (Fernando Pessoa Ricardo Reis)

“Alguns, achando bárbaro o espetáculo, prefeririam (os delicados) morrer.” (Drummond)

“E, aquele/ Que não morou nunca em seus próprios abismos/Nem andou em promiscuidade com os seus fantasmas/Não foi marcado. Não será exposto/Às fraquezas, ao desalento, ao amor, ao poema.” (Manoel de Barros)

Carta de Alejandra Pizarnik a Cortázar *

“Julio, fui tão baixo. Mas não há fundo. Julio, creio que não tolero mais as perras palavras. (…) Me excedi, suponho. E perdi, velho amigo da tua velha Alejandra que tem medo de tudo salvo (agora, Oh, Julio!) da loucura e da morte. [carta escrita desde o hospital psiquiátrico, depois de uma tentativa falida de suicídio]

Reposta de Cortázar *

Não te aceito assim, não te quero assim, eu te quero viva, burra, e perceba que estou falando da linguagem mesma do carinho e confiança – e tudo isso, caralho, está do lado da vida e não da morte. Quero outra carta tua, logo, uma carta tua. Esse outro é também você, eu sei, mas não é tudo e além disso não é o melhor de você. Sair por essa porta é falsa no teu caso. Eu te peço (…) um pulso sobre a terra, alegre ou triste, mas não um silencio de renuncia voluntária. Só te aceito viva, só te amo, Alejandra. (…) não imaginas com quanta vontade abaixaria tua calcinha (rosa ou verde?) para te dar uma surra dessas que dizem eu te amo a cada chicotada.

Nota: Pizarnik se matou meses depois de receber essa carta

*tradução minha

Ricardo Viel, que escreve às segundas, publica hoje no jornal Valor Econômico uma entrevista com o escritor português João Ricardo Pedro; confira aqui

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