As freiras, naturalmente em abundância, foram as primeiras a chegar no bar ao lado da sala de cinema. Um quarteto de senhoras com sanduíches e garrafinhas de vinho rosé se reuniu ao meu lado, em preparação para a noite. “Quero agradecer a vocês por terem me trazido aqui”, disse uma. “Cheers, m’dears”, propôs a outra, e elas brindaram com as taças de plástico. Corta para a entrada dos primeiros rapazes com chapéus e suspensórios tiroleses. Um deles vestia uma saia e um casaco acinzentados e carregava uma caixa de violão. Era Maria, assim que saiu do convento.

As sessões de cinema sing-along de A Noviça Rebelde são organizadas regularmente num cinema especializado em filmes queridos do público no centro da cidade – também há sessões sing-along de Grease e do clássico The Rocky Horror Picture Show, além de uma quote-along (para assistir recitando as falas) de Meninas Malvadas (por que ninguém pensou nisso antes?).

Depois de todos sentados na sala – tivemos ainda a chegada de uma moça vestida de montanha florida (“The hills are alive”) acompanhada de uma cabra e duas flores austríacas Edelweiss – era a hora de sermos instruídos sobre a nossa participação no filme. Em uma sing-along não basta cantar: a graça é gritar de emoção quando Maria aparece, dar instruções sobre como fazer as roupas das crianças Von Trapp (“Atrás de você, Maria!!”, balançando retalhos de cortinas para a tela), vaiar os nazistas e por aí vai.

Em meio à sensação parte vergonha alheia, parte “tá no inferno, abraça o capeta” que sinto compartilhada com quase todos, a nossa anfitriã, uma drag queen reluzente em dourado, nos atira a serpentina verde da realidade: “Vocês pensaram que veriam esse filme com ironia moderna, mas não”. Ali não dá para ir só antropologicamente. Hay que participar.

Sei que um querido professor de cinema provavelmente odiaria a ideia – nos intervalos de filme entre uma música e outra, mal se ouvia os diálogos de tanta participação. Mas as sessões do Prince Charles Cinema são uma dessacralização eventual, quem sabe um pouco necessária, do cinema. É uma reverência que talvez só seja possível depois que os filmes já passaram, já foram apreciados com respeito. Mas é também válida, bonita e real. Há algo de absurdo e fascinante em dezenas de pessoas, em um espaço coletivo, assistindo a um filme como se ele fosse só delas: cantando junto, fazendo um lençol de hábito, dizendo para a vilã “Sai daí, sua mocreia”.

É uma celebração do amor àquelas duas ou três horas que a ironia moderna diz que deveriam ficar no seu passado vergonhoso ou que você já é adulto o suficiente pra parar de ver sempre que está na fossa. “E por que eu pagaria para fazer isso no cinema?”, você me pergunta. Para nada. Não tem por quê. Mas experimente  resistir a um coro como este:

Camilla Costa escreve aos sábados.

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