ou Onde está Foucault quando se precisa dele?

Reproduzo aqui resposta editada a um amigo, em conversa desenrolada no Facebook, sobre o seu pesar diante da impressão de que há, hodiernamente, generalizada falta de propósito ou, antes, a falta generalizada de ganas para achar-se uma realização da vida além do imediatismo, uma que abarque tanto o individual quanto o coletivo.

Meu caro,

Compartilho do seu pesar. E para não resvalar no que penso ser um erro — o de julgar que somos (ou estamos) mais incapazes do que os que nos precederam —, a minha resposta mais satisfatória, embora não totalmente satisfatória, é a de que essa impressão advém do fato de vivermos num período de transição.

Uma coisa que me incomoda nesta abordagem é que, em se tratando de uma transição, esta parece ser demasiado longa. Contudo, agora me vem à mente o insight de que a culpa disto deve ser do meu conceito de transição, certamente mal acabado. Sim, deve ser isto; agora recorro à memória dos meus parcos estudos de história e, para minha surpresa, não consigo encaixar a ideia de transição a nenhuma narrativa que eu domine com detalhes. Aliás, me bateu a curiosidade de saber como se lida metodologicamente com os ditos períodos de transição. Será que temos obras que tragam outras leituras de mundo dos homens que os viveram, além daquelas que se provaram acertadas? — melhor dizendo, vencedoras?

Praticando um pouco de achismo em relação ao futuro, só consigo imaginar que a crise econômica dos países centrais vai, ainda, engendrar outras formas de se pôr no mundo (repare que eu não disse novas formas; há quem fale em uma marcha rumo à desglobalização econômica; acho isso impossível, mas o movimento em si pode gerar resultados inusitados, não é?). Como tanto a crise quanto estas novas formas nos afetarão mais cedo ou mais tarde, nós não vamos passar imunes. Daí em diante, minha cabeça é puro breu e medo.

O que chamo de medo talvez devesse chamar de insegurança, mas me pareceu apropriado tratá-lo assim: como medo. Vi recentemente uma entrevista com Bauman, na qual ele sintetiza a nossa busca em termos de um balanço entre liberdade e segurança. Forçando um pouco mais meu achismo, posso imaginar que o que acontece agora, por exemplo, na Espanha, é um movimento que põe em xeque o que se entende como segurança e liberdade.

Sendo pós-moderno e acatando que:

(1) o que tomamos como realidade é apenas uma representação;
(2) os instrumentos que usamos para descrever esta realidade (as palavras, os conceitos) são também representações;
(3) as palavras e os conceitos estão intrinsecamente relacionados a uma representação de mundo, a ponto de mudanças num lado da equação afetarem o outro, de modo complexo e não-linear.

Então eis aí três conceitos que me parecem valiosos para se estudar: transição, segurança, liberdade. No dia em que conseguirmos entender a história de cada um deles, as mudanças pelas quais passaram ao longo dos séculos e as diversas forças que atuam sobre eles hoje, pode que estaremos mais preparados para encontrar pistas de bons caminhos a seguir, na busca desta realização individual e coletiva de que você fala.

Teria algumas dicas de leitura?

Breno Fernandes é o convidado especial de hoje, com a gentileza de Tatiana Mendonça, que comanda  este espaço às sextas.

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