Capa de "Estórias, Poesias e Trovas de Aquilino C. Macêdo"

Contracapa autografada do livro

A Feira de São Joaquim, reduto talvez derradeiro de uma Bahia velha que esmaece dia a dia, abriga na Rua dos Calçados um talento da literatura popular. Trata-se de Aquilino (ou Aquelino) Cerqueira Macêdo, titular da Barraca Bigode Calçados. Modesto e loquaz, é trovador e poeta versado nos principais temas da alma humana.

Peço sua licença para colorir este Purgatório com algumas de suas principais “estórias, poesias e trovas”. Não farei revisão suplementar às versões encontradas nos volumes adquiridos junto ao próprio autor, em pleno coração da Feira – eventuais erros, portanto, deverão ser assumidos como transgressões da norma culta de lavra de um escriba que a ela, a norma, nada deve. O riso é permitido e bem-vindo.

Sobre a virtude e a moral humana, destaco “O MILAGRE”, do volume “Livro de Estórias, Poesias e Trovas de Aquilino C. Macêdo”, de 2008:

“O ladrão entrou na casa do menino paralítico na noite de Natal para roubar, o menino quando viu o ladrão falou ó Papai Noel, o que lhe pedir você me dá? O ladrão respondeu pode pedir meu bom menino que Papai Noel lhe dar, eu quero um cavalinho e um sapatinho que o meu já está velho e não presta mais. O ladrão foi roubou uma loja e trouxe o sapato e o cavalinho e entregou ao menino começou a andar e o ladrão se comoveu em ser comparado com o Papai Noel que só fazia o bem. O ladrão foi embora e nunca mais roubou, se regenerou.”

Sobre a solidão, recorto “A SOLIDÃO”, do volume homônimo editado em abril de 2007:

“A noite está tão escura.
A lua fez feriado.
Estou sofrendo a tortura, e não tenho ninguém do meu lado.
A noite é bela e eu estou sozinho, sofrendo sem seus beijos e sem ter o seu carinho.
E desse jeito eu não sei o que dizer:
Se a noite é que é escura ou se é escuro o meu viver.”

O dinheiro que não traz felicidade está em “AFELICIDADE” (2004):

“Pobre menino rico da zona sul da cidade
Embora tenha de tudo não tem a felicidade
Não joga bola de gude não sabe jogar pião
Não joga bola de meia na terra seca
Aquele menino pobre sem conforto e quase nu
Vive livre do mundo
É mais feliz que tu”

A maravilha que transcende o trivial está nesta ode à “FEIRA DE SÃO JOAQUIM”, de 2008:

“Na Feira de São Joaquim tem gente que chega, tem gente que sai O povo vem para feira para comprar mais barato Tem feijão, tem farinha, arroz e macarrão Tem mamão, tem melão, tem castanha e quiabo e camarão para fazer o carurú de Cosme e Damião Vem gente de toda parte do mundo, vem gente até do Japão para festejar a festa de São João, comer canjica e milho assado e tomar licor e dançar forró a noite sem parar lá no arraiá na casa de Juvenal”

A cara estampada na capa de seus livros não esconde a origem sertaneja de Aquilino. Espiem pois este “VIRGULINO LAMPIÃO”, de 2008:

“Virgulino Lampião cangaceiro do sertão matou muitos soldados lá naquela região. Um dia de manhã bem cedo travou uma grande batalha na cidade de Cansanção os cangaceiros armados de fuzis na mão matando o povo sem dó e sem compaixão o povo corria gritando ai meu Deus que confusão, sei que vou morrer com dor no coração, depois fizeram uma emboscada e pegaram lampião, cortaram sua cabeça com um golpe de facão, levaram para o museu da cidade pra fazer exibição da cabeça de Maria Bonita e o Cangaceiro terrou do sertão.”

A tragédia do amor proibido entre irmãos é outro tema clássico que não lhe escapa à pena. Leiam com atenção a “O SEGREDO” (2007):

“Na Fazenda Cajazeira morava um Coronel. Ele sempre visitava sua vizinha Dorotea. Tempos depois, o filho dela passou a gostar da filha do Coronel, a mãe chamou o filho e disse que não ia dar bom resultado, mas a paixão dos dois aumentava. A mãe resolveu contar um segredo, tomou veneno, mas antes de morrer uma carta ela escreveu. No outro dia, bem cedinho, um caixão roxo saia e o garoto abismado lendo o que a carta dizia: no tempo da mocidade, ela amou um homem casado e esse era o segredo que no peito ela trazia guardado que você e Rosa Maria é filho do mesmo Pai.”

O tema do amor inatingível aparece em “O SONHO” (2004):

“Linda morena
Dos meus sonhos
Me diga quem é você
É uma deusa ou uma miragem
A saudade no meu peito
Quer me acabar
Por isso tenho que te encontrar
Para meu sonho se realizar
Seu olhar me fascina
E ninguém pode me incriminar
Por eu te amar.”

Sobre a coragem de amar apesar de todas as penas, há este “AMAR, DOCE SEDUÇÃO” (2004), com o qual me despeço desejando-lhes um excelente domingo:

“Amor é encontrar uma paixão.
Louca e doce sedução.
Eu fico feliz como um passarinho voando.
Quero gostar de alguém, que goste de mim também.
Amar sem ter medo de amar.
Se o amor faz sofrer, eu quero ver aonde eu vou parar.
Para amar.”

Ricardo Sangiovanni escreve aos domingos. Exemplares dos livros de Aquilino C. Macêdo podem ser adquiridos na Feira de São Joaquim, por R$ 2 a unidade, ou como brindes para compras de calçados acima de R$ 30.
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