Em silêncio, um garoto descalço, vestido com uma calça escura e uma camisa amarela desbotada, entra no vagão e se senta em um banco próximo à porta. Em um gesto mecânico, tira de uma sacola de plástico uns pacotes verdes e os empilha sobre uma das mãos. Olha para um lado e outro da composição e escolhe começar por onde há mais gente.

A maioria dos ocupantes traz fones de ouvido enterrados nas orelhas ou tem os olhos fechados. Outros conversam ou lêem. Quase ninguém ainda notou sua presença.

O garoto se aproxima dos passageiros e distribui sua mercadoria. Acomoda os saquinhos de bala de goma de hortelã sobre um banco vazio, sobre as pernas das pessoas ou leva o produto até as suas mãos.

Um pedaço de papel com os números 1,00, grampeado na parte de cima do produto, cumpre a função de informar. Calado, o garoto caminha todo o corredor repetindo o processo. A maioria das pessoas aceita a abordagem.

Findo o primeiro ato, a figura opaca senta-se novamente no mesmo banco próximo à porta. Permanece estático, olhar fixo em um ponto qualquer do chão, por mais de um minuto. As mãos, sujas como os pés, balançam a sacola plástica.

A demora além do normal para recolher o produto (ou cobrar por ele) começa a inquietar os “clientes”, que começam a trocar olhares.

O sistema de som anuncia que chegamos na estação seguinte. O aviso desperta o menino, que levanta e, sem olhar para os lados, caminha sem pressa até a plataforma.

Incrédulo, assisto o garoto cruzar a porta do vagão e se perder na multidão.

Começo a analisar o presente que acabo de ganhar. São dez balas verdes de consistência flácida. Coloco uma na boca. Seu gosto é triste. Na parte de trás do pacote, o nome da empresa fabricante, os ingredientes e a data: 23/07/2011.

Onde estarei nesse dia? Onde estará esse garoto? E você?

*Ricardo Viel escreve às segundas

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