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No capítulo inicial de “A Insustentável Leveza do Ser”, Milan Kundera apresenta um dilema que poderíamos denominar de liberdade vs prisão. Em princípio, qualquer ser humano com o mínimo de juízo diria que a liberdade é o paraíso enquanto a prisão, o inferno. Mas como a vida não é um filme de Hollywood, essa polarização entre o certo e o errado, o bom e o mau, não costuma ser funcional. Entre o branco e o negro há uma infinidade de tonalidade de cinzas, e é nela que nós, que não somos Brads Pitts ou Angelinas Jolies, nos encontramos. É o que explica Kundera:

“Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais ela é real e verdadeira. Por outro lado, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve do que o ar, com que ele voe, se distancie da terra, do ser terrestre, faz com que ele se torne semireal, que seus movimentos sejam tão livres quanto insignificantes. Então, o que escolher? O peso ou a leveza?”

Claro está: carregar um peso excessivo nos impede de sair do lugar e torna a existência um martírio. Mas trazer consigo peso algum representa o enorme risco de distanciar-se de maneira tal do mundo a ponto de fazer da liberdade uma prisão. Bom exemplo do que digo é a vida de Christopher McCandless, que foi primorosamente retratada no filme “Na Natureza Selvagem” (Into the Wild, 2007, dirigido por Sean Pean; o filme é uma adaptação do livro de Jon Krakauer, que por sua vez é baseado nos diários deixados pelo próprio McCandless).

Aos 22 anos, o jovem estadunidense abdica dos confortos materiais e sai em busca de uma vida plena, em contato com a natureza e distante das mazelas humanas. Não conto o final para não estragar a surpresa dos que não tenham visto o filme, mas advirto que McCandless – que passa a se autodenominar Alexander Supertramp – percebe que a vida sem nada que lhe ate a qualquer lugar ou pessoa pode não ser a plenitude.

E qual a solução? Também não sei, mas minha intuição diz que é dosar a leveza com algo de peso. Carregar umas quantas pedras nos bolsos. O suficiente para lembrar-se dos caminhos por onde se passou (das pessoas, dos lugares, dos sons, cheiros, cores etc), mas que não seja peso excessivo que impeça de seguir a caminhada. Deve ser um leve peso, que se transforma em âncora apenas como metáfora. Porque a decisão de estacionar em um lugar tem sempre que ser uma escolha e não uma imposição.

Ricardo Viel escreve às segundas

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