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Porque chamaram, eu fui, na época ainda não tinha medos. Mas também não sei se disseram antes o que lá haveria. Lembro que a casa era azul, assim como o caixão, assim como o menino preto que dormia nele. Era a primeira vez que via a morte, coisa que eu nem sabia que podia acontecer em criança.

Até agora quando escrevo a imagem me assombra. Durantes muitos anos rezei pelo menino e sua mãe de lenço na cabeça que chorava o desconsolo dos que ficam.

Só muitos anos depois fui reencontrar a morte. Meu avô achou que chegar aos noventa já era o bastante. Não fui vê-lo azul no caixão. Quis guardar a cara que ele fazia, rindo e levantando o ombro, de quem sabe que nada no mundo tem tanta importância.

Estou pensando nisso porque ando lendo a biografia de um artista morto há quinze anos. Por seu talento hoje reconhecido, virou mito e objeto de militância. Mas morreu pobre como nasceu, tendo que pedir favor aos amigos que ficaram até o fim. Imagino os sofrimentos de não ver seu trabalho reconhecido como achava que merecia, e no desamparo que isso deve causar, pesando mais que as outras faltas, de luz ou comida. O melhor, sendo a morte repetidamente certa, era não ter esperanças de recompensa.

Tatiana Mendonça escreve às sextas
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