Quando dá três e meia de terça-feira, cada um sabe o que se deve. Tem gente que nessa hora respira fundo e olha para o lado para ver se passa, como se fosse um desassossego inofensivo. Tem gente que levanta da mesa e vai tomar café. Tem gente que pensa que é dor de estômago. Tem gente que sem reparar passa o resto do dia suspirando. Tem gente que não aguenta e afoga.

É porque já fiz tudo isso, Luiza, menos a parte de me afogar, por ter medo do mar, que eu tenho que ir embora. Agora. É longe. Você fica com sua mãe, que não sabe de nada porque ia chorar quatro ou cinco bacias até me fazer desistir. E eu ia desistir porque não aguento ver ela chorando. Mas não posso mais.

Por descoragem a gente fica achando sempre que a vida vai acontecer numa hora que não é essa, mas mais pra frente. E vai assim até quase antes do caixão, quando descobre o erro, mas não dá mais tempo.  Eu não. Vi que vai ter que ser agora, nesse minuto.

Luiza, você ainda nem sabe ler pra poder me perdoar. Isso é triste. Eu vou já arrependido. Vou carregando essa culpa como se fosse parte do meu corpo, como se substituísse um osso do meu dedo mindinho.

Com amor,

Tatiana Mendonça deve escrever às sextas

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