Punhos cerrados, elevados à altura dos ombros, vibrando em consonância com o corpo rijo, Carlos Eduardo Berhmann Rátis Martins sai do túnel que dá acesso à lateral do campo da Fonte Nova e é recebido com entusiasmo por uma multidão que o ovaciona. Tem seu último nome cantado em coro, como se houvesse marcado gol de título aos 46 do segundo tempo. Ele não veste azul, vermelho e branco como a torcida que o homenageia. Sua chuteira é de mocassim. Seu traje é um conjunto paletó-gravata pouco confortável para uma manhã de sábado nublado e quente. No gol da Fonte das Pedras, palco montado atrás da baliza eternizada pelo chute canhoto mortal do ídolo Raudinei PERNA-DE-COENTRO, empunha o microfone, abandona o juridiquês que caracteriza a fala de um interventor:

– “Bahêaaaa, Bahêaaaa minha vida! Bahêaaaa, meu orgulho! Bahêaaaa, meu amoooooor…….”

Sim, Carlos Eduardo Berhmann Rátis Martins tem nome, trejeitos e fala de INTERVENTOR. Por definição: Pessoa indicada por autoridade competente para a administração de instituições de direito público em regime de exceção. Entre a torcida do Bahia a definição é outra: Aquele que desceu do fórum para nos libertar.

A distância entre o fórum Rui Barbosa e o estádio Octávio Mangabeira é de apenas 500 metros e pode ser percorrida em seis minutos por quem fizer o trajeto a pé. Esse foi o itinerário de Rátis, firmando compromisso com os presentes de ir à casa judiciária e cassar uma liminar que impedia a votação do novo estatuto do Esporte Clube Bahia pelos sócios, como se fosse um artilheiro que promete o gol do título. Cumpriu o acordo para regozijo dos presentes, entre eles Beijoca – autor de feito semelhante ao marcar o gol que garantiu o baiano de 1976, também na prorrogação.

Desde que assumiu a função outorgada pela justiça baiana de gerir administrativamente o Esporte Clube Bahia durante o período de transição para garantir a eleição de nova diretoria – a eleição anterior foi julgada inválida por descumprimento do estatuto até então em vigor – no dia 9 de julho, a vida de Carlos Rátis virou de ponta-cabeça. Descrito por pessoas próximas e alunos como uma pessoa tranquila, amena, comedida em seus gestos, o professor de Direito Constitucional teve que conviver com holofotes, ameaças veladas, cobranças e tensão constante. Manteve-se firme e convicto durante o processo que culminou na assembleia geral de sócios do último sábado. Em pauta, adequações à lei Pelé que tornaram o regimento interno do Bahia precursor de mudanças há muito exigidas nas estruturas esportivas brasileiras: Isonomia entre os sócios, eleição direta sem filtros para conselho e presidência, ficha limpa para cargos eletivos, conselho deliberativo enxuto e com proporcionalidade entre as chapas concorrentes, além de mandato-tampão para o próximo pleito sem reeleição.

Não é exagero portanto, afirmar que em 39 dias Rátis transformou profundamente a vida do octogenário Bahia. Devolveu-lhe transparência, credibilidade. Reoxigenou as estruturas podres e abriu às portas do clube à torcida que sempre o apoiou. Expôs as chagas internas da instituição e as relações espúrias com setores anacrônicos da sociedade baiana.  Sem estardalhaço, com seriedade e lisura.

As transformações que estão ocorrendo no Esporte Clube Bahia são um alento não apenas para sua torcida, mas devem servir de farol para que outras agremiações sejam capazes de romper com as amarras oligárquicas que coíbem a participação popular no âmbito interno destas instituições.  A torcida de um clube não deve ser apenas o seu maior patrimônio, mas também a força motriz capaz de alavancar o seu destino. A participação popular é fundamental para a criação de um pacto que aproxime as arquibancadas da cadeira de presidente. Para que todos se sintam responsáveis pelo triunfo e para que se apoiem na derrota. Para que o sentimento de MEU TIME deixe de ser algo etéreo e se torne algo plausível, concreto e verdadeiro.

Sabemos que o sentimento que nutrimos por esta ou aquela agremiação é capaz de nos transformar. É capaz de fazer um interventor socar o ar, como se fizesse um gol de voleio. É capaz de fazer um professor de direito sufocar a voz, atrapalhar-se no juridiquês, trocar embargo por escanteio, liminar por arremesso lateral, ação cautelar por tiro direto livre.  O interventor modificou profundamente o Bahia, mas o Bahia modificou ainda mais o interventor. É essa reciprocidade que alimenta e eterniza nosso clube, faz dele parte e extensão de nossa vida.

Esse sentimento, esse pertencimento, Dr Carlos Rátis está experimentando agora. Seja bem-vindo à massa tricolor.  Esse clube gigante — agora mais que nunca — é o clube do povo e NINGUÉM nos vence em vibração. Mas isso eu tenho certeza que você já descobriu.

 Alex Rolim escreve às quintas mas não suportou a ansiedade para contar as boas novas

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