Todo dia antes de dormir Julia pedia na reza do santo anjo para acordar colorida. Dizia baixo com as mãozinhas juntas por favor, por favor, mas ninguém nunca ouviu.

Teve até uma vez que pegou escondido as tintas da aula de artes, as marrons e amarelas, duas de cada, e deixou elas ali quietinhas no bolso da saia até acabar a escola, nesse dia de horas que não mudavam.

Quando chegou em casa foi fazer a mistura, certeza de dar cor de gente, e passou com a mão mesmo pelo corpo todo e pela cara. Quase chorou quando se viu no espelho, mas não derramou lágrima para não se borrar.

Felicidade era tanta que antes de se mostrar pra mãe quis que os outros todos vissem, os meninos que nunca queriam saber dela se não fosse para abuso de mangar. Todo dia uma arrelia, mesmo quando estava de trança ou, se esquecendo, sorria.

Na rua tentou andar normalmente, como se tivesse nascido assim daquele jeito natural, mas o coração pulava tanto que sem querer só sabia saltitar. Até que João apareceu.

João, que numa tarde que nunca podia esquecer disse você é a pessoa mais feia que eu já vi, mas não do jeito que os outros meninos falavam, só de costume. Ele parou antes de dizer e fez depois cara de pena.

Mas agora ele ia ver que ela não era mais descolorida. João demorou no reconhecimento e depois soltou um grito Julia, é tu? e ela balançou a cabeça porque não estava conseguindo falar. E perguntou como foi isso, se era coisa de milagre de igreja. Mas bem aí ela chorou, porque não teve mais jeito. No seu rosto começaram a nascer as listras transparentes de como era o branco antes de existir.

O menino na mesma hora reparou que era tudo de mentira. Julia, coisa de tinta só serve para papel, não serve em pessoa, ele falou bem devagar, como se uma verdade tão certa não pudesse deixar ninguém triste. Ela ainda chorou mais um pouco antes de sair correndo.

Quando voltou pra casa, quase noite, já era de novo como nasceu. A mãe perguntou se estava com fome, mas Julia não quis comer. Deitada no sofá viu que ela chegava para pôr sua cabeça no colo. Amanhã vou fazer uma trança bem bonita foi o que ouviu antes de adormecer.

Tatiana Mendonça escreve às sextas e bem queria salvar Julia, essa menina, mas não achou o jeito

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