No começo, duvidei.

De tão branco havia vibração na pele. Eu mexia com dois dedos as pedras de gelo dentro do copo de uísque, mergulhada na interrogação que minha vida tinha virado nas últimas horas.

Eu era um furacão procurando casa pra derrubar, vacas pra levantar, poeira pra cuspir. Foi quando ele deu com as duas mãos na porta do boteco e a calmaria se aninhou no meu peito.

Em nenhum momento demonstrou dúvida na direção que deveria seguir: olhou sempre dentro do meu olho, puxou a cadeira, sentou ao meu lado no balcão. O que era ruído quedou-se.

Vestia calça jeans, camisa branca, andava descalço. Cabelo preto, encaracolado de tudo. Só eu via a aparição? Disse assim: de duzentos em duzentos anos o amor muda de feição. A sua vida fecha o ciclo dos amores que acabam por motivo fútil. 

Pediu água com gás, duas rodelas de limão. Deixei de duvidar.

Tocou na minha mão, no intuito de me acalmar. A pele era gélida, chegava a doer, quase a queimar. Disse ainda: você deve ficar com os quadros e ele com os discos.

Eu pensei: sempre quis ficar com os quadros, mas agora queria ficar com TUDO.

Ele sorriu. Ficar com tudo não é boa saída, dear, ele sussurrou. Ficar com os discos dói mais. Eu sei, vida própria, experiência.

Experiência de onde, ousei perguntar.

Ele tossiu de leve, depois sorriu de novo. Bebeu o último gole da água com gás, saiu do banco. Quando virou na direção da porta e seguiu vi que os pés não caminhavam, só alisavam o chão, quase sem tocar o assoalho.

Acatei o conselho e fiquei com os quadros.

Carmezim escreve às quartas-feiras

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