“Menina amanhã de manhã, quando a gente acordar, quero te dizer que a felicidade vai, desabar sobre os homens, vai desabar sobre os homens, vai desabar sobre os homens”

Sempre enxerguei uma beleza insólita nesses versos do conterrâneo Tom Zé. Talvez porque eu acorde, quase sempre, de mau humor, ou porque ache interessante a ideia de algo que desabe – e desta forma fuja ao nosso controle – sobre nossas cabeças preenchendo-nos de felicidade. O bonito da metáfora é brincar com a natureza das coisas. Só desaba o que é concreto e seria muito bom se a felicidade o fosse.

Como não desabasse sobre mim, fui buscar felicidade no feriado de São João. Na terra de Tom Zé, ou, mais especificamente no meu torrão natal, uma fazenda perdida nos limites não demarcados de Irará, Coração de Maria e Pedrão. Após um hiato injustificável, de cinco anos corridos e dez festejos juninos, retorno não para estar em Irará, afinal assim como Tom Zé, nunca saí de lá. Retorno  na esperança de reviver os grandes folguedos da minha infância-adolescência, ouvir o resfulengo da sanfona, arrastar a chinela até o raiar do dia e me fartar com os licores e sabores típicos do período.

Entretanto, tudo isso ficou em algum canto recôndito da memória. Já não existe e talvez nunca volte a reviver.

Um comerciante local alerta que o povo da roça prefere as festas nas cidades próximas. Aqueles arraiás maquiados com modernidade, eletrificados, sem baião e sem zabumba, que não perecem pois são custeados pelo erário público.

Enquanto isso a seca castiga a terra, faz sofrer o sertanejo que, apesar de forte, não é invulnerável. No ano do centenário de Luiz Gonzaga, a colheita minguou e a sanfona calou. O sanfoneiro, bêbado de esperar por alguém que adentrasse o salão, retira-se sem tocar uma nota. São João sem futrica, véi Lua.

Ai Deus do céu, ai, por quê tamanha judiação?

A resposta vem em gotas de chuva, num som mais ritmado que os oitos baixos do mestre Januário. As orações na Serra do Araripe, as missas do vaqueiro no sertão, não foram em vão. O olor da terra molhada reacende a esperança e revigora a fé em dias melhores.

É a felicidade desabando sobre os homens.

                                                                                                                                                                                                 Alex Rolim escreve aos sábados

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