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Algo tienen estos años
Que me hacen poner así
De uma canção de Fito Paez
 

Então, ela foi até a janela do apartamento e me mostrou como, aos 13 anos, se colocou na ponta dos pés e separou com os dedos as frestas da persiana para poder ver de onde vinha aquele barulho que a tinha acordado no meio da noite. E era como se ela visse, de novo, os tanques de guerra que, dez anos antes, passaram pela rua da sua casa na Croácia e colocaram fim à sua primeira vida.

E ela, tão calada, começou a falar, talvez para tentar entender tudo aquilo e, de uma vez, enterrar aquela dor. Eu me aproximei e, também olhando pela janela, vi, não só os tanques e os soldados, mas todo aquele mundo que ela começava pela primeira vez (e única) a me mostrar.

Viajei com ela por aquele passado doloroso e a vi menina, na escola, no último dia antes da fuga. Sem poder dizer aos colegas que nunca mais os veria, sem poder beijá-los, sem poder dizer a Bojan que aceitava ser sua namorada, ela se despediu deles como todos os dias, sabendo que o dia seguinte não existiria.

Então fugimos rumo à fronteira. Ela, a avó e a mãe, no carro, sem saber se o pai e o irmão, que iam por outra saída, conseguiriam deixar o país. Dias depois, eles se encontrariam, vivos e sem mais nada, para começar uma nova vida no Canadá.

Ela me contava tudo aquilo, e eu ia tinha cada vez mais certeza do quanto eu era apaixonado por aquela mulher de olhos lindos e mãos quentes. Quando ela terminou aquela confissão e me abraçou, eu a ajudei a enxugar minhas lágrimas – seus olhos claros continuavam secos – e tive certeza de que ela era a mulher da minha vida.

Até que numa terça-feira de verão na Espanha nos abraçamos e cada um seguiu seu caminho. Prometi para mim mesmo que não ia olhar para trás, mas antes de dobrar a esquina me virei e a vi esperando por um último aceno. Para mim, era um até breve e não um adeus. Eu estava seguro de que voltaríamos a nos encontrar. Mas já se passaram nove anos, nós nunca mais nos vimos, e eu não tenho mais nenhuma certeza. Nem mesmo de que isso que vivi foi real.

* Ricardo Viel escreve excepcionalmente nesta terça-feira

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