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Quanto fui, quanto não fui, tudo isso sou
Quanto quis, quanto não quis, tudo isso me forma
Quanto amei ou deixei de amar é a mesma saudade em mim
Trecho de “Sou Eu” – Álvaro de Campos
– Você está triste?
Perguntou-me de forma súbita. Franzi a testa como quem não entendesse a pergunta, apesar da clareza do questionamento.
– Sei lá, seus textos são tão tristes, melancólicos, embevecidos de saudade…
Eis algo que definitivamente não entendo. Essa associação quase instantânea entre saudade e tristeza. A lógica do pensamento dominante deve ser esta: Sente saudade porque não está satisfeito com o presente, logo está triste. Como se o fator determinante para o contentamento pessoal fosse a mera justaposição presente/passado intermediada por derivantes que calculassem o desvio padrão da variável FELICIDADE em relação à expectativa real. Não é tão simples como a matemática. Ainda bem.
Sentir saudade não é querer voltar ao passado. Não é querer reescrever os capítulos de um livro inacabado. A saudade te leva ao passado pelo casual motivo, óbvio ululante, de que só é possível recordar o que foi vivenciado. Como – e para quê – explicar aquela saudade estranha então, de um tempo não vivido?
Percebo a saudade mais como vela que como âncora. É ela que te permite direcionar os ventos do futuro para outros rumos. É o lastro necessário para que possamos olhar a bússola e saber aonde desejamos chegar. Ou voltar. Andar para trás (também) é seguir em frente.
Não me envergonho da minha saudade. Não me entristeço por senti-la. Não me preocupo em escondê-la. Ela é parte de mim, e uma parte fundamental para que eu saiba o valor das decisões que devo tomar agora. E como o futuro é consequência das decisões do presente, logo é o passado – balizado pela saudade – que determinará o que vem pela frente.
E, verdade seja dita, é bem mais cativante que aritmética.
Alex Rolim escreve às quintas-feiras
