You are currently browsing the tag archive for the ‘João Cabral de Melo Neto’ tag.
“A dor define nossa vida toda”
(De uma canção de Caetano Veloso)
Iñaki tinha 19 anos e a cabeça cheia de sonhos quando seu pai foi assassinado com um tiro na nuca. Juan era um alto executivo da Telefónica, e a empresa, por ordem judicial, grampeara telefones de integrantes do grupo separatista ETA, o que levou à prisão de alguns líderes. Como represália, foi sequestrado, e, um dia depois, seu corpo sem vida foi abandonado em um bosque.
A bala que acabou com a vida do pai e mudou a vida do filho foi disparada na manhã do dia 23 de outubro de 1980, o divisor de águas da vida de Iñaki. A partir daquele dia, e durante anos, ele conviveu com um sentimento que quase o quebrou, o ódio.
“Percebi que isso [odiar] estava contaminando as minhas relações pessoais e profissionais. Odiar é algo que consome, que cansa, porque você tem que odiar 24 horas por dia”, me contou. “E me dei conta de que o terrorismo não só havia matado meu pai, mas estava acabando também com a minha vida.”
A frase, não sei bem porque, ficou dando voltas na minha cabeça durante dias e dias depois de nossa conversa*.
Por sorte, nunca tive motivos para odiar. O mais próximo que vivi foi justamente o oposto, esse sentimento que nós inutilmente tentamos definir e que pode ser chamado de paixão ou amor (visceral). Amar também consome e termina por ser esgotador.
Quem tão bem falou disso foi João Cabral de Melo Neto, no poema “Os três Mal-Amados”, que começa assim:
O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço.
Trocasse Iñaki amor por ódio, teria um poema feito à sua medida. Ele quase foi comido pelo ódio, mas foi salvo pelo amor (pode soar cafona, mas foi assim).
O amor pela mulher, pelas filhas e pelo lugar onde viveu a vida toda fez com que ele substituísse a ideia de revanche pela da negociação. Entrou em um grupo de vítimas do terrorismo basco e recentemente sentou-se cara a cara com um ex-integrante do ETA. Escutou um pedido de perdão, aceitou o gesto e deixou na sala do presídio o último resíduo de ódio que havia em seu corpo.
*Entrevistei Iñaki para uma reportagem sobre o fim do ETA, publicada em janeiro deste ano na revista Retrato do Brasil
Ricardo Viel escreve às segundas
