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Monclar era um professor enérgico, mas anos depois de concluir seu curso de Estética, na faculdade, perdoei qualquer ofensa e reconheci que tinha seus motivos.
Reconheci ou supus: Monclar fala de coisas delicadas. Tão delicadas que uma má compreensão, um olhar desatento, uma leitura apressada são como um esbarrão – um gesto grosseiro que termina por desfazer e extinguir de repente a organização precária, a forma provisória através da qual esses “objetos” se mostram ao pesquisador, levando-os de novo a diluir-se no mundo quotidiano. Mundo esse de onde, só a muito custo, o estudioso consegue tirá-los, e poucas vezes encerrá-los para a posteridade num registro abordável que chamamos de “conceito”.
Foi numa aula dele que ouvi sobre o verbo “revelar”. Teria a ver com “véu”, com “tirar o véu”, tirar aquilo que cobre para ver o que há por trás. Dedutível, mas agora é que vem a parte boa: se quebrarmos a palavra, revelar torna-se re-velar, “velar” uma vez mais. Ou seja: descobre-se algo encobrindo-se outro algo.
Pensando sobre o cinema, André Bazin chegou a mesma conclusão, produzindo uma fórmula que vale a pena ler no original: le cadre est un cache – o quadro é um esconderijo, a tela que mostra é a mesma que esconde, que deixa de mostrar tudo que não está nela.
Até aí a conclusão parece irretocável, mas vale a pena lhe dar seguimento. Vale a pena pensar que aquilo que não está na tela pode vir a estar. E mesmo que não venha a aparecer no quadro, tem sobre ele uma ascendência fantasmagórica. Sim: o fora do quadro assombra o quadro – o limita, por isso o define; através dessa exclusão, torna importante o que está incluso. O que está ausente é sempre uma coisa só: é o mundo, em forma de possibilidade. Daí a importância do que está presente; daí a particularidade do filme; daí a cinefilia.
Há, porém, quem prefira ignorar o retoque – como quem ignora o mundo. É um perigo de que as séries de entretenimento atuais são exemplo.
Pensemos nas Crônicas de Fogo e Gelo, combo de fantasia que conjuga livro, série, filme, video-game e camiseta.
A revista New Yorker fez um perfil de seu autor. Ali se descortina uma nova relação entre leitor e obra. George R. R. Martin é achacado, ofendido, condenado. Seu crime: “demorar” (sic) a escrever. Os fãs querem a conclusão da saga e o querem para ontem.
Alguém ja disse que já não são leitores, mas clientes. Eu acrescentaria: trata-se de cegos do pior tipo, os que não querem ver.
Não querem ver todo o resto, apenas o que a obra propõe. Não admitem sair da poltrona, pois isso equivale à exclusão temporaria daquele universo.
Assim a ficção deixa de ser um cache para ser um todo. Deixa de ser chave para a reflexão sobre o mundo para se tornar refúgio contra ele. Assim periga a noção de que, se vale a pena olhar debaixo do véu, vale a pena colocá-lo de volta. Porque o que vimos pode nos transformar, mas só experimentaremos essa possível transformação se nos lançarmos na parte fora do quadro.
Diego Damasceno escreve às terças
