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por Alex Rolim

Eu não gosto de casamentos. Tampouco de enterros. Nem tanto pelo choro lamurioso das mulheres nestes eventos – sofro quando vejo mulher chorando – mas porque enxergo uma ritualização extremada de um ciclo de passagem que deveria ser natural. Casamento é mais fácil recusar o convite, abstive-me de dois no último mês, mas velório é mais difícil de justificar ausência. No casamento os cicerones pouco lamentarão a falta de alguém, pois como já não existe o frisson pelo enlace nupcial – muitas vezes parece que a festa torna-se o fim em si – os convidados mergulham em um frenesi tal que não há espaço para que os noivos se apeguem a detalhes tão ínfimos – e isso é até louvável. No velório o personagem principal não reclamará de filigranas tão mundanas – e isso é mais louvável ainda. Mas os convidados é que precisam de suporte, consolo, condolências, pêsames e todos os trâmites sociais para superar um rito doloroso. As palavras aqui pouco adiantam, mas a presença é reconfortante.

Nos poucos casamentos que presenciei, a conta é inferior aos dedos de uma mão, sempre achei peculiar que a cerimônia findasse com “… até que a morte os separe.” Pois então os nubentes são desafiados a enfrentar todo tipo de intempérie relacional, mas já sabem: a morte eles não podem vencer. Culpem Adão e Eva, creiam em pós-vida ou algo que valha, mas neste plano material não tem pra onde correr: se tudo der certo, o feliz matrimônio termina na figura sinistra de foice em punho. Sem apelação.

E se fui a mais velórios deve-se principalmente ao fato de ter um profundo respeito com quem fica neste vale de lágrimas. A morte exerce ali seu poder desagregador, não há outra opção, a partida é inevitável e para quem ainda vive só resta à resignação. Ou pelo menos é o que se imagina.

E seria uma eterna verdade universal não fosse essa nossa imensa MACONDO lambuzada de dendê que costumam chamar de Bahia. Fato amplamente noticiado mundo afora, Gilberto Araújo Santos, 41 anos, interrompeu o próprio velório para espanto (a priori) e posterior êxtase familiar. Seguindo a tradição MANGABEIRISTÍCA da província, sequer o inusitado caso gozava de ineditismo. Ficcionalmente Quincas Berro D´Agua já enganara a morte, algo imaginado por Jorge Amado a partir, segundo o escritor Affonso Romano de Sant’Anna, de fato realmente sucedido.

O detalhe que talvez tenha passado despercebido e que me chamou bastante a atenção foi que Gilberto não morava com a família, era morador de rua, e que após o episódio foi acolhido novamente no seio familiar. Precisou morrer para reaver seu lugar na família. O que me fez lembrar outro caso verídico, esse sem repercussão, de um vizinho de Pirajá que morreu no quarto e a família só percebeu três dias depois, quanto o ambiente da casa começou a ficar fétido devido à putrefação do corpo. Esse tipo de situação, aposto eu, deverá se tornar corriqueira nos próximos anos.

O homem morder o cachorro já deixou de ser notícia na Bahia, há muito tempo.

Alex Rolim escreve às quintas

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