Josephine era dessas figuras que nutrem a longevidade dos clichês sobre a arrogância dos franceses. Em não gostando de  comunicar-se por outro idioma que não o seu, cometia o vitupério de maldizer o francês de quem não tinha essa língua como mater, o que era meu caso. Conheci-a em um restaurante vegetariano, na rua Direita da Piedade, quando ela tentava manifestar ao garçom seu desgosto para com o excesso de gengibre que a cozinha pusera em todos os pratos, enquanto o pobre homem, seguro de que a cliente gringa estivesse somente curiosa em saber quais itens eram utilizados no preparo do cozido baiano para o qual ela apontava, listava-os vagarosamente, marcando bem as sílabas de cada palavra e oferecendo-lhe um sorriso entre um e outro ingrediente ditos. Compartilhando a mesa com ela e notando que a moça se começava a impacientar com o atendente, pedi-lhe desculpas pela intromissão e perguntei-lhe, em francês, se ela gostaria que eu traduzisse sua mensagem. Excusez-moi, est-ce que vous voudrais que je traduise votre mensage? Ela fixou os olhos em mim por alguns segundos, os lábios enrugados, uma expressão parecida com raiva, e limitou-se a corrigir minha gramática, que mesclara o respeitoso pronome de segunda pessoa do plural, vous, à conjugação referente à informal segunda pessoa do singular do verbo gostar no conditionnel. On dit vous voudriez. Depois, baixou a cabeça e, ignorando a mim e ao homem de pé a seu lado, abocanhou uma garfada de cuscuz marroquino. Entendendo que quem cala consente, fiz aquilo a que me propus; o garçom pediu-lhe desculpas, dizendo que notificaria a gerência, e retirou-se, agradecendo-me. Quando reproduzi o diálogo que tive com ele, em francês, Josephine me corrigiu outras três vezes — uma liaison não feita, uma pronúncia errada e nova falha de conjugação —, contudo deixou que eu estendesse a conversa, ainda que truncada por suas insistentes correções. Desse modo, pude descobrir que ela era de Rouen e que estava passando férias na casa da irmã, professora da Aliança Francesa. Estava alojada na Ladeira dos Aflitos e, por ora, passava o tempo zanzando entre o Porto da Barra e o centro.

Convidei-a para um café no Largo Dois de Julho e, durante o trajeto, fiz-me de guia turístico, revelando-lhe o papel histórico que a Praça da Piedade teve como palco de execução dos revoltosos da Conjuração Baiana, movimento inspirado nos ideais da Revolução Francesa, e comentando-lhe que, apesar da atual deterioração, a Avenida Sete já fora, um dia, tão elegante quanto um bulevar parisiense, modelo que inspirara sua última reforma, no início do século passado. Josephine não dava mostras de que se regozijava escutando-me. Com efeito, ela parecia deixar que eu falasse apenas para me corrigir o francês, e isso não tinha nada a ver com eventual espírito pedagógico que pudesse compartilhar com a irmã, pois, sempre que uma palavra me faltava, por esquecimento ou ignorância, ela fazia que não compreendia o equivalente em português ou em inglês, obrigando-me a interromper as histórias que contava e a ater-me à descrição de significados. Somente depois de me levar ao limite de onde o ânimo vira abismo, ela cedia em dar a palavra e dois, três, quatro sinônimos, como que para reiterar minha incapacidade linguística. Além disso, sempre me corrigia a pronúncia das palavras que me ensinava, ainda que eu tivesse certeza de que, em pelo menos metade das ocasiões, não havia diferença em como cada um de nós as pronunciávamos.

Do café fomos ao Solar do Unhão, onde se exibia uma exposição fotográfica com base em rituais do candomblé. Falei a Josephine de Oxalá, de Xangô e de Iansã. De Ossanha, de Omulu e de Nanã. Comparei nossos deuses aos deuses da mitologia grega e tergiversei sobre a ideia de ciclicidade contida no jogo de búzios, explicando-lhe que, no começo dos tempos, Ifá enviara Exu para percorrer o mundo, escutando de todas as gentes, bichos e plantas as histórias de suas vidas, em especial, os problemas que enfrentaram e o modo como os solucionaram, para que, ao cabo dessa jornada, o conhecimento coletado fosse transmitido aos seguidores de Ifá, os babalaôs, cuja função seria guiar novas pessoas no enfrentamento de velhos problemas. Josephine me ouvia, mas nada perguntava, nada comentava. Era frustrante e irritante não ouvir um très intéressant, um quel chouette, um oh là là que fosse de sua parte, somente correções, correções, correções. Até os nomes próprios, nas legendas das fotografias, ela queria que eu os dissesse com sotaque francês, transformando Oxóssi em Oxossi e Oxumarê em Oxumarré. Va te faire enculer, Josephine, xingava-lhe eu, mentalmente, vez ou outra, ponderando se o desfrute de seu ar de July Delpy morena pagava o preço da aporrinhação de seu comportamento. E logo continuava falando. De Euá e de Oquê. De Orô e de Obá.

Nos beijamos ao pôr do sol, em frente à Engrenagem, no pátio do solar. Meia hora depois, estávamos na casa de sua irmã, no quarto onde Josephine residia temporariamente, nus e apressados. O que eu esperava, enfim, aconteceu: tudo o que Josephine calara durante a tarde veio à tona, como se suas perguntas e comentários estivessem guardados naquele quarto e somente lá ela pudesse se valer deles. Sucede que, para não fugirmos da mise en scène, as perguntas e respostas tiveram de adaptar-se. Dessa forma, quando ela me pediu que descrevesse a beleza de Oxum, tomei o deleitoso corpo que tinha em meus braços como base. E quando me perguntou do poder místico da dança, ergui-a do chão, pedi-lhe que fechasse os olhos e que tentasse seguir-me a cadência, para o comprovar. De pergunta em pergunta, nos reposicionávamos, em busca da melhor resposta que eu a pudesse oferecer, sem roteiro a seguir, guiados em nosso improviso por novos cheiros no corpo, por novos gostos. Os lábios de Josephine não mais se crispavam, mas se esticavam em um riso leve, sem dentes.

Não sei em que momento Josephine parara de me corrigir a gramática. Notei-o apenas quando ela sussurrou em meu ouvido um pedido. Que lhe falasse em português. Aquilo me pegou de surpresa. Titubeei, sussurrando-lhe de volta palavras de carinho. Ah, como você é bonita, neguinha. Linda. Ela quis mais, queria orações complexas, queria períodos longos, com todos os termos acessórios e integrantes aos quais tivesse direito. Comecei, então, a rememorar nossa tarde, o quanto eu relutara em intrometer-me em sua conversa com o garçom, a felicidade que me proporcionara ao aceitar meu convite, a perene memória de suas panturrilhas desafiando as ladeiras da cidade. Josephine murmurava qualquer coisa em concordância e assentia com a cabeça, num gesto repetido e cada vez mais rápido, cada vez mais rápido, o murmúrio cada vez mais alto.

Até que ela escancarou a boca, e não saiu som nenhum.

Enquanto eu amarrava os cadarços, Josephine rastejou para a beira da cama e abraçou-me por trás. Pousou a cabeça em meu ombro e disse-me, em um português horrível, Vecê é benitá, neguinhá. Dei-lhe um beijo na boca e não a corrigi.

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Breno Fernandes escreve às terças