Foi na praça, quando ele voltava do almoço de domingo no self-service que ficava a duas quadras de casa. Caminhava depressa, sentindo-se incomodado com a irritação que lhe causara ter encontrado vazia a garrafa térmica de café do restaurante, mimo da casa aos clientes. A pressa era uma tentativa de escapar de si mesmo, da vexação de abalar-se por uma pequenineza como aquela.

Perto da praça, viu um rapaz comprando retalho de cigarro na banca de revistas e desejou imitá-lo sem culpa, no que a culpa veio imediatamente, sem carecer do gesto. Antes que a pudesse deglutir por inteiro, ouviu seu nome pelas costas. Tomou um leve susto.

Ele havia passado por ela sem notá-la, parada embaixo de uma quaresmeira roxa. Estava distraído, disse ela. Pois é, disse ele, há quanto tempo. Fazia muito tempo mesmo, desde que ela deixara de namorar um de seus amigos, quanto tempo faz?, quase seis meses. Estava passando por aqui de carro, vi essas flores e parei para admirá-las, disse ela, são lindas, é uma quaresmeira, não é? Ele não sabia, não sabia identificar quase nenhuma planta, embora conhecesse o nome de muitas. Olhou atento para as flores roxas e sorriu, lembrando-se de um passeio que fizera, certa feita, em Berlim, em um terreno baldio e mal cuidado onde havia cerejeiras ofertadas à Alemanha pelo governo japonês após a queda do muro, porque as cerejeiras eram símbolo da esperança ou algo do tipo, ele não se recordava dos detalhes. Somando-se os dois eventos, devem ter sido as únicas vezes em que ele prestou atenção a uma árvore.

Ela quis saber do que rira, ele lhe contou a história e, para sua surpresa, ela conhecia o lugar. Essas árvores ficam em Bornholmer Strasse, disse ela, a estação onde começou o movimento de derrubada do muro. Ela havia estado lá meses antes. Depois que eu e…, disse ela, meio sem graça, você sabe… Ele sabia, mas não consentiu, em vez disso perguntou o que ela tinha achado de Berlim. Ela sorriu e revirou os olhos, dando início ao relato de viagem.

De Berlim falaram de Barcelona e de outros lugares que haviam visitado na Europa e no mundo. De viagem passadas saltaram para viagens futuras, o que estava diretamente associado à temática de projetos futuros, que por sua vez não estava desassociada do fato de estarem solteiros ou com alguém, pergunta que ela fez primeiro, embora ele suspeitasse de que, caso tivesse obedecido o ímpeto de indagá-la tão logo aquela pergunta lhe passou pela mente, ele a teria feito muito antes dela. Estou sozinho, disse ele, e você? É complicado, disse ela.

Em algum instante da primeira hora de conversa ela se recostou no tronco da quaresmeira, num movimento fluido, que não lhe interrompeu a fala. Ele, por sua vez, cedeu temporariamente ao olhar a quota majoritária de atenção de que os ouvidos dispunham. Notou-lhe a pele fresca, bastante à mostra no vestido domingueiro e tropical. Notou-lhe o vermelho das orelhas. Os dedos dos pés inquietos; a curva da cintura, a que uma brisa providencial fez o vestido se moldar. Sobretudo lhe notou os olhos: eles riam, mesmo quando a boca fina se retraía. Mordiscou os lábios, enquanto tentava encontrar uma bonita metáfora que retesse aquela visão, pois que as metáforas são principalmente lembretes da beleza das coisas. Não foi, contudo, além de você é um colírio para os olhos; precisou devolver aos ouvidos a atenção que lhes tomara, porque ela sugeriu que fossem tomar um café, um suco, um sorvete.

Assim que ela se empertigou, chacoalhou a mão esquerda três vezes e soltou um ai. Parou o movimento brusco e segurou a mão esquerda com a direita, os dedos nus daquela esticados e afastados uns dos outros. Lado a lado, ambos acompanharam o surgimento de uma bolhinha de sangue, formando-se no dedo indicador, na base da unha, inflando feito uma nanobola de chiclete. Foi a árvore, disse ela, com hálito quente, depois de ter girado a cabeça na direção dele. Ele quis se voltar para ela sem culpa, mas sabia que essa viria antes do gesto. O que ele não esperava — talvez porque não fosse do tipo que conseguia distribuir a atenção pelo corpo de maneira equilibrada — foi aquele impulso de avançar sobre a mão dela e de abocanhar-lhe o dedo machucado, sugando-lhe levemente o sangue, de olhos fechados. Quando se deu conta do que fazia, não soube como agir em seguida, por isso ficou mais algum tempo com o braço dela em suas mãos, o dedo na boca e os olhos fechados, sentindo um travor no fundo da língua que não era do sangue nem do sal da pele.

Foi o leve movimento que ela fez, a fim de recuperar o dedo, que o obrigou a soltá-la e a encará-la. Ela não sorria: nem a boca, nem os olhos. Apenas o observava. O silêncio só não era total porque o coração lhe batia com alarde, reverberando seu ritmo para fora do corpo dele. Só lhe restava pôr as mãos nos bolsos e sustentar o olhar.

Vamos?, quiz dizer o meneio de cabeça que ela fez. Aos primeiros passos dela, ele deu um salto discreto e a acompanhou. O corpo entrou no ritmo do coração com o movimento, de modo que não mais se percebiam os batimentos. Agora, sim, o silêncio era total.

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Breno Fernandes escreve às terças