Aplicativo permite que pessoas troquem de lugar umas com as outras

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BRENO FERNANDES

Em um café no Salvador Shopping, o artista plástico Sandro Canotilho, 28, espera. Olha ansioso para o celular sobre a mesa, enquanto brinca com a alça da mala que traz a tiracolo. Logo o aparelho apita. Sandro começa a ler a informação que acaba de chegar, mas, antes de terminar, um homem para a seu lado e chama-lhe pelo nome. É o biólogo Gabriel Figueiroa, 32. Ele também traz uma mala de viagem consigo e pede desculpas pelo atraso; explica que pegara um trânsito intenso desde Praia do Forte, de onde veio. Os dois se cumprimentam e começam a conversar. Dali a alguns minutos cada um vai tirar seu molho de chaves do bolso e passar ao outro. Sandro e Gabriel estão trocando de vida temporariamente. Por trocar de vida leia-se trocar de casa e de emprego. O insólito é que essa é a primeira vez que eles se encontram sem mediação da internet.

Como o artista e o biólogo, milhares de pessoas ao redor do mundo estão aderindo a essa prática, que em inglês é chamada de loling. O nome deriva do aplicativo de celular LoL: Living other lives (Vivendo outras vidas), a ferramenta por meio da qual se pode conhecer alguém que queira trocar de vida com você. O americano Kyle O’Neil, criador do aplicativo, teve a ideia a partir de uma dinâmica feita na empresa de software onde trabalhava, na qual os funcionários tiveram de interpretar uns aos outros por um turno. “Era um exercício para entrosar os colegas e para eliminar certo fordismo que havia ali, cada um trabalhando em projetos ou partes de projetos muito pequenas”, conta O’Neil. “No fim do expediente, meu colega Mike comentou que adoraria continuar sendo Frank, quem ele estava interpretando, por mais um tempo, para poder desfrutar dos serviços oferecidos pelo condomínio onde seu personagem vivia. Para minha surpresa, Frank tirou as chaves do bolso, lançou-as para Mike e disse: ‘Tenha uma boa noite, Frank!’ Incrível, né? Então pensei: e se houver mais gente disposta a isso?”

E há. Segundo informações da empresa fundada por O’Neil para cuidar do aplicativo, somente nos Estados Unidos, cerca de 2 milhões de usuários do LoL já experimentaram uma troca de vida por períodos que variaram de um dia a um mês. Na Europa, principalmente, o LoL tem sido muito utilizado a nível internacional.  Enquanto isso, no Brasil, onde a moda começou há menos tempo, estima-se que pelo menos 12 mil permutas já foram realizadas.

DISCRIÇÃO  — O LoL é uma mídia social, mas não é propriamente uma rede social, uma vez que não se estabelecem amizades, nem os dados dos usuários ficam visíveis. É tudo feito com discrição. Depois de cadastrado — detalhando estado civil e vida em família; função no trabalho e salário; entre outros dados íntimos —, você indica ao software os critérios da vida que deseja experimentar, e ele tenta encontrar alguma que preencha esses requisitos. Uma mensagem é enviada à pessoa que tem essa vida que você quer, contendo informações daquilo que você pode oferecer em troca, e, caso ela aceite, só então o contato é estabelecido. A partir desse ponto cabe ao usuário se responsabilizar pela sondagem e investigação da legitimidade dos dados do outro.

Gabriel e Sandro passaram por todas essas etapas. “A proposta partiu de Sandro, que buscava uma experiência de vida fora de Salvador, mas não tão longe, com algum trabalho feito ao ar livre”, conta Gabriel, que trabalha no Projeto Tamar. “O Gabriel pinta por diletantismo e gostou da ideia de poder se dedicar um pouco a essa atividade no meu ateliê”, complementa Sandro. Assim se predispuseram a trocar de vida por uma semana.

TROCA COMPLETA — No caso dos baianos, a troca foi light. Eles combinaram de manter seus nomes, carros e roupas. Mas há quem se aventure nessa experiência para se transformar por completo em outro alguém. É o caso da assessora de comunicação K., 25, de São Paulo. Ela já realizou três experiências de hard loling, quer dizer, todas elas com troca total. “Na primeira vez, ‘lolei’ com uma jornalista que tinha um relacionamento aberto. Eu estava solteira e, como gostei do cara, não vi problema em ter um relacionamento de três dias com ele”, relata. “Ele começou a me chamar pelo nome da namorada por zoação, e eu achei divertido!”

Assim, nas experiências seguintes, K. quis embarcar de corpo e alma. Permutou nome, roupas e até o cartão de crédito. Foi assistente social em uma favela por um fim de semana e foi mãe solteira de um garoto de sete anos por um dia. “Já tendo vivido uma experiência por brincadeira, decidi que as próximas seriam para meu crescimento pessoal. Nos dois casos, quis me livrar de medos: o medo, típico da classe média, de perder status social, e o medo que, como mulher, tenho, de acabar tendo que criar um filho sozinha.”

Segundo K., em todas as experiências tudo correu bem. A assessora atribui isso à etapa da troca de mensagens e estabelecimento de confiança. “Quem quer ‘lolar’ de maneira positiva precisa ser transparente em tudo”, aconselha. Mas cuidado, claro, nunca é demais. A mãe com quem K. trocou de vida por um dia, segundo esta, chegou a contratar um detetive particular para investigar se a assessora era mesmo quem alegava ser.

LEI E DESEJO — O professor da Faculdade de Direito da Universidade de Brasília, Milton Ezequiel de Moraes, explica que a prática de loling tem severas implicações legais. “Falsidade ideológica é o mínimo. Imagine as responsabilidades trabalhistas ou mesmo penais que alguém pode ter de arcar por conta desse teatrinho? Há um caso, nos EUA, em que ambos os sujeitos foram acusados pelo roubo que um cometeu enquanto se passava pelo outro”, conta Moraes. No Brasil, não há registros de problemas legais, embora muito se reclame, nos fóruns online e nas redes sociais, que uma das etapas mais difíceis do processo é convencer os empregadores a permitir que um desconhecido, não necessariamente com as mesmas capacidades profissionais, tome o lugar de um funcionário da casa.

Para o sociólogo e psicanalista Bernardo Lemos Pereira, que estuda o tema, os riscos — físicos, materiais, legais — não só não impedem as pessoas de se aventurarem no que ele chama de identidade conscientemente orquestrada, mas também servem de incentivo extra para “impulsionar o desejo da alteridade”.  “Vivemos tempos líquidos, de fluxo constante, de reconfiguração permanente. A identidade sempre esteve susceptível a esse ambiente, mas agora a relação entre o limite do eu e do outro pode ser negociada explicitamente”, explica Pereira, para, em seguida, dar sua opinião sobre os benefícios ou malefícios do loling:Acredito que o loling permite que ajustes de personalidade desejados ocorram de maneira menos traumática, embora esse ajustes não sejam tão facilmente feitos. Por outro lado, há de se considerar que um escambo de papéis sociais é um primeiro passo no caminho para uma capitalização do eu. Isso não pode ser bom.”

Com efeito, de acordo com o sociólogo, a possível capitalização da prática já está a caminho. Há rumores de que algumas celebridades tentam negociar com o LoL a monetização da chance de terem suas vidas usadas por um dia. O’Neil confirma que recebeu propostas nesse sentido, mas nega que haja negociações em curso.

Agora, é esperar para ver o que acontece se ou quando o loling passar do lúdico e do subjetivo para um cenário de leilões e ações na bolsa.

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Breno Fernandes escreve às terças