Tinha um menino no metrô estudando chinês. Ele não era um chinês que estava vendo uma revista, era um homem lendo uma apostila para aprender chinês. Enquanto uma velha diarista dormia e eu o observava, ele treinava dizer a reunião será na quinta-feira, e isso eu inventei agora. Na verdade, talvez essa língua nem exista, chinês, e então ele estudasse mandarim ou japonês ou outros tipos de desenhos. Minha ignorância é a coisa mais vasta que existe.

Ele tinha um plano de vida e eu era só uma soma interminável de pensamentos inúteis. Estava mais irmanada com a velhinha diarista que dormia de cansaço, embora não estivesse fisicamente cansada. Aposto que ninguém ali além daquele menino pensava em mandarim, o que fortalecia a minha fraqueza, mas isso não tinha muita valia, porque ele estava lá para nos dizer a todos que enquanto a gente passava tempos desperdiçados imitando mentalmente a voz da mulher que anunciava Próxima Estação Paulista Com Transferência Para A Linha 2 Verde do Metrô ele aprendia algo importante e exótico.

Certeza que quando conhece alguém o menino não consegue passar muito tempo sem falar despretensiosamente eu estou estudando chinês ou mandarim ou chinês e a pessoa sempre comenta surpresa é mesmo com aquela cara que o faz se sentir alguém exótico e importante.

Eu queria aprender chinês e mandarim e entrar no metrô com a minha apostila e ficar repetindo uma frase qualquer cuidando para que uma delas soasse mais alta que as outras e aí todo mundo de repente reparasse e eu continuasse fingindo que nada aconteceu.

Mas não nessa vida.

Tatiana Mendonça escreve às sextas

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