De tão fininha, a pele — aquele pedaço que é a fronteira entre a planta e o peito do pé — refletia a luz do abajur. O reflexo me atingia os olhos. Fosse o da superfície de um relógio, o efeito seria o mesmo: aquilo era uma traquinagem. Eu poderia me arrastar alguns centímetros para o lado e me livrar do foco de luz, mas a minha posição me dava um ângulo perfeito dos seus pés. Eu estava sentado no chão, ela numa cadeira. Os pés cruzados por debaixo do assento. O esquerdo se acomodara na concavidade rasa formada entre tornozelo e calcanhar opostos, e o pé direito se balançava para lá e para cá, para cima e para baixo, ninando seu companheiro com suaves impulsos dos dedos plantados no chão. Ela tinha uma pintinha no segundo dedo do pé esquerdo, o preguiçoso.

Não que eu tenha fetiche por pés, mas com ela, desde o primeiro momento, eles me chamaram atenção. Quando nos encontramos, ela usava tamancos de borracha pavorosos, amarelos, que serviam de farol na rua escura. Não foi difícil segui-la. Entrei em sua casa. Ela tirou os tamancos e os deixou ao lado da cama. Sem querer ocupar a única cadeira do cômodo e tampouco sentar-me em sua cama, me acomodei ao lado deles. Um vestígio de chulé me alcançou. Senti também o cheiro dela, impregnando todas as coisas, aroma de flor. Ela me ofereceu um sanduíche e, enquanto eu comia, sentou-se na cadeira, diante do notebook. Perguntei-lhe se podia fumar, ela consentiu. Eu tinha duas pequenas amostras de vinho na mochila, abri uma garrafa e lhe ofereci outra. Brindamos. “À sua visita à cidade”, ela disse. “À sua hospitalidade”, retribui. “Desculpe não ter algo melhor para oferecer”. “Não diga isto, achei ótimo o lugar. Além do mais, você me fez economizar uma grana de hospedagem. Eu é que espero não estar te atrapalhando.” “De modo algum.” Ela apanhou uma folha de papel ao lado do computador. “Preparei uma listinha de pontos turísticos interessantes para você passear nestes dois dias. Sinto também não poder te acompanhar, mas as aulas, o trabalho.” “Sem problemas.”

Dei uma última tragada e joguei a bituca dentro da garrafinha vazia de vinho. Tampei-a e a agitei, para apagar o cigarro. “O que você tá vendo aí?” Ela virou a tela para mim. “Ah, é um vídeo que me mandaram, de um menininho que foi ao dentista e ficou chapado com a anestesia. Dá pra ver?” Ela abaixou a tela do notebook um pouco. Rimos por mais de um minuto e vimos o vídeo mais duas vezes. Ela então me encarou, com um sorriso. Ela tinha sardas e, quando sorriu, todas as suas pintinhas mudaram de lugar. Me lembrou Campo Minado, o joguinho de computador, no momento em que você perde e ele revela todas as minas. Com este sorriso revelador, ela perguntou: “Quer fumar um?” Abriu a gaveta e retirou um plastic-bag com seda, um cigarro aberto como uma banana e uma pedrinha de haxixe. “Você prepara?”

Enquanto eu queimava a pedrinha com um isqueiro, arrancando-lhe fragmentos e macerando-os entre meus dedos, ela se voltara para o notebook e continuava suas coisas. Uma música começou a tocar. I’m yours, de Jason Mraz. Vi de relance que ela abrira um site de letras, para acompanhar a canção. O cabo de um pente virou microfone. Foi neste momento que ela cruzou os pés sob o assento, o esquerdo se acomodando na concavidade rasa entre tornozelo e calcanhar direitos. Mesmo deitado, ele dançava, o pé preguiçoso. E dançava como aquelas pessoas que tocam guitarra imaginária; fazia movimentos de cordas, ondulatórios, os dedos se abriam, se esticavam, se contraiam, enquanto o pé direito, suportando o peso do outro, fazia a marcação do bumbo da bateria. Um Dois. Um Dois. Quando eu me encurvei para lamber a seda e fechá-la é que vi a pintinha, no segundo dedo, próxima à unha, quase oculta pelo dedo ao lado. Contrastava na pele. Me lembrei da piada da formiga em cima da geladeira: um pontinho preto numa superfície branca. Era assim, a pintinha.

¡Ostia! ¿Es que ese coloca, eh? Não sei por que falei em espanhol. Soava melhor no momento. Rimos. Ela pôs mais uma vez o vídeo do garotinho muito doido, que começamos a imitar, e eu quase me mijei, de verdade, tive de ir ao banheiro. De volta, encontrei um colchão ao lado da cama preparado para mim. O notebook agora estava no criado-mudo, aos pés da cama, e ela já havia escolhido um filme para assistirmos. Deitei-me e constatei que os tamancos amarelos estavam próximos ao meu rosto. Mais uma vez sorvi o odor do seu chulé, que àquela altura quase não se destacava mais por entre o cheiro dela e o cheiro de haxixe queimado.

Foi difícil nos concentrarmos no início, continuávamos a imitar as frases do menininho muito louco. Aos poucos o filme nos pegou. Mas então, lá pela primeira meia hora, ela cruzou as pernas de modo que o seu pé pairou logo acima do notebook, do ângulo em que eu via. As luzes estavam apagadas, só a tela iluminava — ela e o pedaço de pele entre a planta e o peito do pé, de tão fininho. O ambiente ainda estava turvo pela fumaça. Todavia era suficiente para eu ver bem a pintinha sobre o dedo. Eu me sentia como se tivesse desvendado os segredos dela. Mesmo só a conhecendo pessoalmente havia algumas horas. Se você, em tão pouco tempo, sabe que uma mulher tem uma pintinha próxima à unha do segundo dedo do pé esquerdo, como não se sentir íntimo? Isto me deixava um tanto acabrunhado. Porque ela não sabia nada de mim. Conhecendo-me só de ouvir falar, ela me acolhera em sua casa; e ali estava eu, bisbilhotando sua privacidade. Não falo do chulé ou do baseado, mas das coisas que aquela pintinha me contava. Para além das suposições, eu tinha algumas certezas a partir daquele pontinho inesperado. Quantos homens não devem ter notado, e beijado, e adorado aquela pintinha? Quantos, em devoção à pintinha, não se deitaram ao seu lado com a cabeça voltada para seus pés, e quantas coisas (não) aconteceram nestes momentos simplesmente pelo fato de que eles não a estavam olhando nos olhos, mas olhavam a pintinha? Distraídos contaram segredos, admirando a beleza da composição. Temerosos se calaram justo no momento em que ela esperava uma frase deles, porque olhavam concentrados para a pintinha, com medo de perdê-la, deixá-la escapar. Mesmo um cético deve ter molhado a ponta do indicador com a língua e, em meio a deboches, esfregado-o contra a pintinha, duvidando da sua veracidade. Eu já havia visto pintinhas em lugares curiosos, na dobra do joelho com a panturrilha, atrás da orelha, no sexo, já havia visto pintas que nem mesmo eram inhas, mas brutas, rugosas. Nenhuma delas estabeleceu contato comigo. Uma pintinha no rosto, do tipo chamativo, é uma esnobe candidata a câncer de pele. Pintinhas nas costas são mapas, meros instrumentos para beijos perdidos. Em qualquer parte entre o umbigo e as virilhas — estas são as piores: revelam-se distração barata ao final. Aquela que fitava agora, porém, me encarava sério, cheia de convicções. E eu tive a certeza de que o sinal era um sinal. Se a melanina pôde ter se concentrado ali, no segundo dedo do pé esquerdo, próximo à unha, e dado um delicado enfeite a um lugar tão irrelevante e desprovido de atenção, bem, então valeria a pena prostrar-me aos pés daquela mulher.

Fiz um comentário qualquer, para fugir destes pensamentos. Ela não respondeu. Ergui-me um pouco para espiar-lhe. Dormia.

Aproximei-me. Eu queria vê-la de perto, a pintinha. Queria eu também beijá-la, adorá-la. Mas não seria uma espécie de abuso? Seria mais grave, seria uma profanação. Não me havia sido dado o direito. Antes eu deveria confessar meus pecados. Sentia que era o único meio de me ser permitido tocá-la, aquela pintinha sagrada, como uma chaga, como uma relíquia, sem maculá-la. Soprei seu nome. Ela se mexeu inteira, apertou o lençol contra si. Olhei para o seu rosto. As sardas estavam quietas. Voltei-me de novo para os pés, mas agora estavam cobertos.

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Breno Fernandes escreve às terças