Para Violeta

Ele vinha correndo, e eu, sentada no banco ao lado da entrada, podia assisti-lo atravessar o pátio comprido que separava seu prédio da portaria. A corrida era inútil, afinal eu já estava ali, e não faria diferença esperar um ou dois ou dez minutos, mas ele corria, driblando os guris que jogavam futebol, pulando por sobre a cabeça das meninas que pulavam corda, porque eu havia chegado mais cedo do que o previsto, ele ainda estava no banho quando o porteiro interfonou para seu apartamento, não queria que eu o esperasse muito. Talvez ele é quem não quisesse esperar muito para me ver, mesmo só fazendo vinte e duas horas e dez minutos desde que me vira pela última vez, quinze dias desde que me vira pela primeira vez, numa sessão fechada da minha nova peça, A Paixão No Tribunal, na qual ele só entrou por ser amigo de um amigo do elenco, da qual ele só não saiu porque, nas entrelinhas do texto cheio de clichês, pôde deslumbrar na advogada de tailleur uma mulher capaz de não romantizar a paixão em excesso, de não encobrir suas partes feias, virar a cara nem tratá-las com cinismo, e, ainda assim, uma mulher disposta a entregar-se a uma paixão como uma mãe é capaz de amar a seu filho natimorto. Foi isso que ele me escreveu no convite de amizade do Facebook, e foi o que reiterou quando eu o aceitei no Whatsapp, logo depois de mencionar a beleza dos meus olhos, dos meus cachos, meu sorriso, minha bunda.

Enquanto ele corria para mim, eu adivinhava em cada músculo que se retesava o desejo represado no dia anterior, numa feijoada da galera do teatro em Guarajuba, quando todos nos deixaram a sós, eu na rede, ele no chão, me balançando, me empurrando para longe e para perto, menos longe e mais pra perto, mais pra perto, e então pra longe. Ele corria, e no suor da testa escorria a frustração de não ter me visto na formatura de ontem à noite, a que eu teria ido só por ele, mas não com ele, e a qual acabei perdendo porque o amigo que me daria convite e carona me levou para outra festa. Eu não soube o que fazer. À meia noite ele me ligou, o ruído da música das duas festas não deixou a gente conversar direito, quando ele disse Eu quero te ver, bem pode ter sido Eu vou te esquecer, aí sim eu soube o que fazer, pedi pra ir embora e fiquei até três da manhã despetalando o buquê que ele me mandara, ouvindo o mp3 que ele me enviara, com Cazuza cantando que tinha um medo, que medo!, de dizer que me amava. E eu queria ser amada por aquele cara, o cara que via em mim uma mulher de curvas lindas, de opiniões firmes e de amor incondicional; o cara que havia ido à feijoada com o amigo de um amigo só para me ver; que, não tendo coragem de me beijar, me empurrava para longe, mas aí tentava de novo, e de novo, e essas tentativas já anunciavam todas as brigas que superaríamos, com ele me puxando para perto sempre que eu ousasse me afastar. Queria, sim, amar aquele cara que corria, arrodeando as meninas que brincavam de rodinha, se esquivando dos meninos que brincavam de pega-pega, e que tinha me ligado mais cedo convidando para comer um acarajé, de modo tão inesperado, que eu, num ato falho, lhe disse que acabara de comer um, no que ele contestou com um E que tal um abará agora?, e eu ri e logo depois estava na casa dele, esperando no banco da portaria, enquanto ele vinha correndo.

Quando ele finalmente chegou, largou-se a meu lado no banco, pôs os óculos antes de me encarar e, arfando, sorrindo, exclamou.

Ufa.

.

Breno Fernandes escreve às terças