Antes de frear de vez, o piloto fez uma gracinha, pôs a descarga da moto para rugir. Talvez nem tivesse girado tanto o acelerador, mas o silêncio das quatro da manhã projetou o ronco da máquina vale acima: uma avalanche sonora em sentido contrário.

— Acorda, Tororó! — gritou Filipe.

Jurreina saltou da garupa, surpreendentemente equilibrada para quem estava de salto e tinha bebido todas aquelas roskas; a garota ajudou a enxotar o silêncio com uma gargalhada.

O rapaz começou a agarrá-la ali mesmo no acostamento; Jurreina, todavia, conseguiu se esquivar e, sempre gargalhando, saltitou atabalhoadamente encosta abaixo, até chegar ao pequeno píer incrustado nas margens do dique. Ao longe, viam-se as estátuas de orixás, no meio da represa. Parada na ponta do píer, de braços abertos, Jurreina sentia-se flutuar como os deuses.

Uma mão agarrou sua cintura; lábios colaram-se à nuca, para dali circundarem o pescoço. Jurreina virou-se de frente para Filipe, e ele aproveitou o abraço para apalpar seu bumbum. Por dentro da calça.

— Ah, eu vim do Wet até aqui na gana de fazer isso, neguinha…

— Foi bom demais o show, né? — comentou ela, deixando que a outra mão dele enveredasse por debaixo de sua blusa.

— Bom. Foi bom. Boa demais é você! — riram juntos daquele chiste.

Num instante, estavam seminus, com Filipe ajoelhado à frente dela, vendo-a cantar e dançar, requebrando as cadeiras, enquanto ele estapeava o próprio rosto e esmurrava o peito, tão ébrio de testosterona estava quanto a moça, de álcool.

— Mulé, que bunda maravilhosa é essa?! Tô de cara! Na moral, você é mais bonita que Oxum, a rainha da beleza. Era você que devia tar ali, ó, naquele pedestal.

— Pois devia mesmo! — Jurreina soluçou de rir. Em seguida, afastou as pernas uma da outra; agachou o tronco até as mãos tocarem os tornozelos e ela conseguir ver as estátuas dos orixás de ponta-cabeça; e engatou a velocidade três ou quatro do créu. — Pode olhar, galera! Pode olhar. Que nem Oxum me barra…

O jato d’água que atingiu o píer interrompeu na hora a coreografia. Toda molhada, Jurreina tirou os cabelos do rosto e engoliu o cuspe que estava a caminho quando viu a mulher que pairava acima de suas cabeças, de braços cruzados e cara de braba.

— Que gostosa! — balbuciou Filipe.

— Quer dizer que você se acha mais bonita que eu — comentou a mulher voadora. — E ainda tem a cara-de-pau de vir dizer isso aqui, na minha casa, a essa hora da madrugada.

— O-Oxum? — gaguejou Jurreina. A outra fez uma reverência. — O-Oxum, m-me desculpe. Não f-foi a sério, é que eu tô meio bebinha, n-não é, Filipe? — Jurreina cutucou o companheiro, mas este estava petrificado. Ela então o estapeou. — Fala, misera!

— F-Foi brincadeira, mesmo, dona… — contemporizou o rapaz, saindo do torpor.

Oxum gargalhou. Enquanto ria, seu corpo subia e descia no ar, repetidamente, como se ela saltasse numa cama elástica invisível.

— Ah, sendo assim, tudo bem, tudo de boa na lagoa! — disse a orixá por fim. — Eu adoro brincadeira! Todo mundo gosta, não é mesmo?

— É, s-sim! — Jurreina sorriu sem graça.

— Pois então dá licença. Se vocês já terminaram sua brincadeirinha, agora é minha vez — Oxum afastou as pernas uma da outra e pôs os braços à frente do corpo, esticados, as mãos espalmadas. — Receba, periguete!

Um clarão repentino cegou Jurreina, não a deixando ver o que se chocou contra seu peito e a derrubou no chão. Quando o relâmpago terminou, Oxum havia sumido, bem como Filipe; ao lado dela só havia uma carpa, debatendo-se sobre a madeira do píer. Jurreina tentou levantar-se, mas não sentiu as pernas.

***

Os três homens não foram embora tão logo acabaram de fumar o baseado. Jurreina sorriu satisfeita; dentro d’água, a massa de escamas esverdeadas que a envolvia da cintura para baixo se agitou. Atenta, observou um dos homens se afastar para fazer xixi junto a uma árvore. Dos dois que permaneceram sentados, um dormitava, e o único que olhava para a água parecia não a ver, parecia mirar além. Virou-se para ver o que estava atrás de si, o sorriso transformou-se em esgar. Oxum!, murmurou, sentindo um azedo no fundo da garganta. Era o máximo que seu corpo produzia, agora, quando pensava na divindade ou revia sua estátua.

De início, as lágrimas choradas foram bastantes para fazer o dique transbordar. Ao se dar conta de que as vertia em vão, os olhos da moça assorearam. Naquela mesma noite, chegara à conclusão de que, se Oxum não era piedosa consigo, tampouco ela o seria com Oxum. Então Jurreina incumbiu a si a missão de fazer com que todos os homens da cidade repetissem o que aquele antigo peguete havia dito antes de ser transformado em peixe: que ela era, sim, mais bonita que a orixá. Ai dos que não o ousassem dizer! Ela os tragaria para o fundo do dique.

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Breno Fernandes escreve às terças