Para Diego Damasceno

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Veio técnico da prefeitura, veio professor universitário, veio delegado, e nada. Fizeram-se testes, inspeções. Nada. Ninguém tinha explicação para o fato de que a estátua do poeta mudara de pose. Em vez do gesto solene de declamador, com a palma da mão direita virada para cima, os dedos de quem acabara de deixar o mítico condor escapar-lhe e ganhar os céus da baía de Todos-os-Santos, o Castro Alves de bronze exibia, agora, as costas da mão direita virada para cima, como se a oferecesse para ser beijada.

—Vai ver ele desmunhecou! — brincou, em frente às câmeras de tevê, o taxista que primeiro notara a mudança. Depois, temeu ser processado por homofobia, porém os ativistas dos direitos LGBT não só adoraram a blague, como também se inspiraram nela para promover um desmunhecaço no centro da cidade. Mas isso, adiante. De início, era preciso explicar as causas do acontecimento, e, uma vez que as autoridades não lançaram luz sobre o caso, uma vez que os familiares de Pasquale de Chirico, o escultor que concebera a estátua, não encontraram respostas nos registros do falecido artista, abriu-se o debate à opinião de quem quisesse se pronunciar.

Todo mundo tinha uma teoria. Falava-se em vandalismo, em vanguardismo, em robótica, em ocultismo. Jaime Figura mencionou a força dos orixás, e Gilberto Gil perorou sobre a arte divina, a arte-atma. A situação exaltou o próprio trabalho, graças ao qual a cidade fora escolhida para sediar um milagre daquele porte, enquanto a oposição ressalvou que as manifestações de Deus, segundo a Bíblia, geralmente estavam associadas a pedidos de mudança. Caetano disse que não estava entendo nada, mas que estava achando tudo lindo e que qualquer explicação positivista ou qualquer aproveitamento político que se tirasse daquilo era cafona e burro. Um desconhecido médium, Erivelto de Cajazeiras, afirmou tratar-se de um pedido de ajuda do espírito de Castro Alves, que estava preso àquele local e que não aguentava mais — não aguentava mais a algazarra do carnaval, completaria alguém da turma do rock.

O movimento da praça mudou. Outrora, exceto pelos turistas, não se parava ali se não havia festa; agora as pessoas iam à praça e ficavam horas olhando, perscrutando, sondando o monumento, debatendo acaloradamente suas hipóteses.

Um mês depois, quando o frisson em torno da pose castralviana arrefecia, e quando ninguém aguentava mais ouvir o hit da vez, do Asa de Águia — Vem beijar / a mãozinha do poeta / não vá perder essa festa / ela é feita pra você —, aconteceu de novo. A mão da estátua reposicionou-se de uma maneira que, para alguns, indicava o número três, formado pelo maior-de-todos, o dedo mindinho e o seu vizinho. Para outros, o principal do gesto era o círculo obsceno formado pelo indicador e pelo polegar, o que levou Erivelto de Cajazeiras a retificar-se: não se tratava do espírito de Castro Alves, e sim do de Gregório de Matos, traquinas como sempre. Um terceiro grupo enxergou a letra efe do alfabeto de sinais. Esses conseguiram provas de que, nos tempos em que morou no Rio de Janeiro, Castro Alves conheceu a LIBRAS, desenvolvida no Brasil, uma década antes, pelo francês Ernest Huet. A eles ficou claro que a primeira pantomina fora um eme, e passaram a aguardar a letra seguinte.

Novos gestos vieram, aleatórios no tempo e diversos na riqueza de subtexto possível de extrair-se deles. Houve o punho fechado, a figa, o diabo do rock, o vê de vitória, o polegar positivo, o polegar negativo; houve os dedos cruzados durante uma final de campeonato brasileiro disputada pelo Bahia; e houve até um malcriado dedo médio no dia das eleições municipais. Com o tempo, os habitantes da cidade acostumaram-se à gesticulação intermitente do poeta. A bem da verdade, ansiavam por novas manifestações, e nem todas as expectativas tinham a ver com a popular loteria ilegal que surgira, premiando quem adivinhasse a pose seguinte. Da distração à fé, do medo ao maravilhamento, da desconfiança à curiosidade, o número de razões para o apreço ao fenômeno era tão grande quanto o de supostas explicações. O certo é que a praça nunca mais ficou vazia.

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Breno Fernandes escreve às segundas-feiras, quinzenalmente