Querida A.,

Estão abolidas as flores dos mimos que sempre te faço.

As flores, estes estilhaços de arco-íris, não servem para nós. Deixemo-las para os outros casais. Os que se beijam. Os que vivem juntos ou fazem planos para isso. Poupemos às floriculturas seu estoque de rosas para os namoros debutantes, o que nunca foi nosso caso. Resguardemos os lírios para que os noivos os encontrem e possam, no toque da pele com as pétalas, sentir a confiança de que precisam para encarar o futuro. Até mesmo os arranjos de orquídeas — até mesmo eles, preservemo-los para os one-night stand, mais merecedores do que nós, que nunca conhecemos o corpo um do outro.

Eu sei que não houve falta de desejo. Não nos faltou coragem nem oportunidade. (Talvez, um pouquinho de timing.) Céus, tampouco nos faltaram incentivos. Os amigos. Os conhecidos. Os mais ou menos conhecidos. Ao nos verem juntos, mesmo que estivéssemos comprometidos com terceiros, diziam-nos que éramos um do outro; que tinham certeza de que éramos um do outro. E eu sorria. E você sorria. Às vezes eu me pergunto: será que aceitamos um sonho que não era nosso? Vestimos a carapuça?

Oscar Wilde escreveu que a única diferença entre uma paixão eterna e um capricho é que o capricho dura um pouco mais. Ah, às vezes necessito pensar assim, para não murchar, feito todas as flores que te dei. As gérberas, gerânios e açucenas. Mas logo volto ao espírito de antes, de sempre, do dia em que nos conhecemos. Há quanto tempo? Éramos moços; você me pediu um favor com a intimidade de quem falava consigo mesma, lembra? E eu acedi de bom grado, como só o faria por mim. Amar é atuar em causa própria. Tal qual agem as flores, que alimentam as abelhas com o pólen apenas para se reproduzirem. Lisiantos e clívias. E lá vêm elas de novo, as flores…

Sucede que nosso amor não nasceu flor, mas arbusto. É mimosa pudica, a dormideira. Se nos tocamos, nos contraímos. O calor nos encerra e nos impede o abraço, fecha a boca e seca os lábios. Nosso amor sofre de sismonastia, me ensina a Wikipédia. Daí o vasinho com a dorme-dorme que você acaba de receber, junto com este cartão. Olha bem para ela: somos nós.

Espero que você continue a receber flores. Gloxínias, begônias, azaleias. Belas-emílias, cravos e hibiscos. Certamente, elas não virão de mim. Virão dos outros, e aceito isso. Não sinto ciúmes de um tipo de amor que não posso ter. Entretanto, se me permite fazer um pedido, não deixe de tocar a fecha-a-porta de vez em quando. A sua carícia de um segundo é um sentido pra ela existir.

Com amor,

B.

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Breno Fernandes escreve às segundas-feiras, quinzenalmente

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