Descobri que estava a sós com Demidá pela mudança em seu sorriso. Eu, que vinha acompanhando suas apresentações com bastante frequência nos últimos meses, que gostava de pensar que memorizara todos os seus gestos e expressões, a ponto de conseguir antevê-los, achava-me em terreno desconhecido. Era a minha primeira sessão privada, e reencontrava espasmos que julgava que nunca mais teria, passadas as vexações de quando se é adolescente. Tinha a garganta fria e as mãos secas desde o primeiro hello.

Do que você gostaria?, pergunta-me a bela Demidá, quando ainda nem sei que seu codinome vem de Demi (Moore), com quem ela não se parece nada, + -da, sufixo russo que carrega a ideia de semelhança e que acentuo por eufonia. Por que você não dança para mim enquanto se despe, querida Nidemidá? Isso. Assim. Temos todo o tempo do mundo dentro de quinze minutos. O tempo é uma boneca russa, sabia? Aposto que não: é patente o tempo de reflexão que você desperdiça vendo filmes pornô, para incrementar seu show com vulgaridades do tipo desta, que você faz agora, maltratando com chupões seus delicados seios da cor do inverno. Para, Demidá; eu gosto da sua vulgaridade natural, a que está enredada em seus cabelos demasiado longos e que goteja deles sem que você perceba. De onde venho, seu não corte é associado às carolas evangélicas. Não é insólito, em se considerando o que você está fazendo aí de joelhos? Se estou excitado? E como estou, dorogaya! Não repara no pau mole, isso tudo é novo para mim; se você fosse do tipo que beija, sentiria o amargor da adrenalina empapando a minha boca nesta hora, com este close de óscar da sua… Como é boceta em russo, Demidá? Pizdá? Pizda? Falei certo? Ah, deixa para lá, sou péssimo com línguas, mesmo o meu inglês é terrível, veja só: não era isso que eu ia te pedir, usei mal a expressão. Sério, não o precisa fazer, daqui vejo que você não está confortável. Que tal retrocedermos um pouquinho? Quedam ainda sete minutos, matrioshka.

Se você insiste, eu me calo, entre constrangido e admirado. Eu te entendo, sabe, Demidá? Daqui, centenas de milhares de fibras & ondas distante, não te sobram muitas ferramentas. A câmera e a subserviência são tudo o que te resta. Conheço as capacidades de ambas, especialmente da última, pois que também vivo em uma sociedade injusta. É a subserviência o efeito especial dos que têm baixo orçamento. Difícil é mensurar se a sua é maior, igual ou menor que a que se vê durante o dia; talvez seja irrelevante a comparação. Como disse, é a minha primeira vez aqui, mas, acredite, já compreendo a potência do prazer que este cabaré de bits proporciona, graças a você, solynshko. O empoderamento que você me oferta, ao fazer algo de que não gosta por mim, é mais excitante do que todo esse seu catálogo de prestidigitações, Houdinidá de araque. Assim, sem o áudio e sem o cheiro da dor, sem resistência e com um gatilho remoto, é fácil, é gostoso ser sádico.

Agora entendo a alegação de um compatriota, que nos acusou de trazermos o sadismo (e seu revés) n’alma desde a fermentação dessa nos engenhos. Você o entenderia, vocês tiveram os mujiques e o Stálin. Você o entenderá, eu o traduzo para ti, com meu mau inglês e meu russo de google. Limpa isto daí, que eu sei que não é gozo, é truque, e põe a roupa, veste o teu sorriso anteverbal, Demidá. Vamos recomeçar. Quero te ver dançar no ritmo das minhas palavras. Sim, temos tempo, temos todo o tempo do mundo em dois minutos, lyubimaya moya.

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Breno Fernandes escreve às segundas-feiras, quinzenalmente

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