Why do I linger over these trivial details?
Because the truth of the story lies on the details,
and a I have no choice but to tell the story
exactly as it happened.
Paul Auster, The Brooklyn Follies

*por Junia Mortimer, de Nova York

Não, mon amour, não vou abordar Nova York por seu caráter babilônico. Nem por seu literalmente estonteante babélico labirinto de línguas que se cruzam sem se tocarem. Não vou fazer elogio ou crítica ao skyline da metrópole, tão peculiar e exuberante, por onde passeiam Normans Fosters, Portzamparcs, Le Corbusiers, Philips Johnsons e outros, em pé, sem pé de igualdade. Sem pé nenhum, às vezes. Prefiro percorrer essa cidade sem mapas, até nos perdermos, e nos acharmos, e nos perdermos de novo, e assim, incerta e confusamente, nos darmos o direito de conhecer não a grande Nova York, mas uma Nova York nossa, subjetiva de caminhos e descaminhos, de encontros e desencontros, de alguns sorrisos, de vômito em sarjeta e, sobretudo, de uma imensa ânsia de existir. Caminho por entre as ruas do Village, entre um pub e outro, em direção ao Downtown, descendo aos fundos da consciência. Não mais que de repente, o Zuccotti Park. E passamos do flanerismo louco ao engajamento formidável de um movimento como o Occupy Wall Street.

Cheguei à ocupação sozinha num domingo à noite de muito vento e poucas palavras, depois de mais de 10 horas de voo e baldeação, e de um falatório e de uma excitação consumista muito típicos de não poucos brasileiros que têm os Estados Unidos como sua feira hippie-chique. O que me encantou naquela noite domingosa foi não o espetáculo, que algumas vezes vira na mídia, apesar da escassa cobertura, mas sim um tocante sentido de humanidade na resistência ao mau tempo. Não era hora de assembleia-geral, e quem estava no Parque eram aqueles que ali passariam a noite. Um acordeon tocou e um casal dançou, mas logo a música se desfez, e o flash de uma câmera ou outra cessou. Dei uma volta no espaço ocupado, andei por entre lonas que cobriam suprimentos, livros da biblioteca Occupy Wall Street, cruzei com o media press center. Havia um silêncio que me capturou toda a atenção. Nenhum silêncio mortal ou apassivador; silêncio cúmplice do cansaço de mais um dia de batalha. Silêncio virtual, no sentido de potência transformadora para um novo dia de luta, para uma possibilidade de mudança. Encantou-me essa hora por não ser a hora do espetáculo, por ser o momento por detrás das coxias. Mesmo que ali não houvesse limites entre palco e camarim – porque não se tratava de encenação, mas sim de ação e crença em transformar o mundo. Encontrei dois brasileiros, por coincidência: Bruno Torturra, da revista Trip, e Vanessa Zettler, estudante de Artes em Nova York. Imediato acolhimento, discussão, identificação e companheirisimo. Quebrado meu silêncio, vieram outras conversas com quem estava ali e com quem chegava, perguntava, americanos curiosos em saber o que acontecia no Zuccotti Park, e comparar o que viam ali com o que tinham visto na mídia. Perceber o descompasso entre o sensacionalismo midiático sobre sexo, drogas, mesmo que com pouco rock’n roll, e a estrutura que mantinha o movimento em plena organização, estrutura horizontal, sem liderança específica, atribuída ao engajamento e à participação de uma coletividade urbana. Urbana de todas as cidades do mundo. O movimento não é o primeiro nem será o último de uma série de movimentos sociais que, a partir de estruturas horizontalizadas e com hábil uso da tecnologia de redes sociais, tem abalado a ordem vigente no mundo. Mas tem um aspecto especial, pois chegou onde se pensava não ser possível chegar, e se instalou no cerne de uma sociedade de consumo por excelência. Por isso, principalmente, o Occupy me pareceu ainda mais caro, ainda mais potente.

Mas, de novo e sempre, fiquemos atentos: foi triste me despedir de lá no último sábado 22 e ver turistas fotografando a ocupação como quem visita um “circo de horrores”, ou comprando desesperadamente, para não ficarem out, bottons de vendedores ambulantes com os slogans “We are the 99%” ou “Occupy Wall Street”. Não tarda e a Nike ou Adidas lançam uma coleção com esses dizeres, e o que era ideologia vira marca, vira produto, e se dilui na boca do capitalismo.

Que o movimento vença o inverno. E que 2012 seja ainda mais radical nas suas ocupações.

Junia Mortimer, enviada especial a Nova York, é a convidada desta quinta. Camilla Costa, nossa titular, volta no domingo.

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