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	<title>O Purgatório</title>
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	<description>curtas diárias para escapar do Inferno</description>
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		<title>O Purgatório</title>
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		<title>A revolta das aguadeiras</title>
		<link>http://opurgatorio.com/2013/06/18/a-revolta-das-aguadeiras/</link>
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		<pubDate>Tue, 18 Jun 2013 10:00:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Breno Fernandes</dc:creator>
				<category><![CDATA[Salvador]]></category>
		<category><![CDATA[aguadeiras]]></category>
		<category><![CDATA[história]]></category>
		<category><![CDATA[manifestações contra o poder]]></category>

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		<description><![CDATA[Fato: Em Salvador, no dia 21 de março de 1871, O Alabama noticiava: “Aguadeiras: soube que as africanas fizeram uma coligação?” O que o jornal abolicionista chamava de “coligação” foi nada menos que o boicote das aguadeiras do Terreiro de Jesus ao guarda do chafariz dessa região — um dos mais importantes postos de abastecimento [&#8230;]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=opurgatorio.com&#038;blog=21106966&#038;post=7109&#038;subd=ilpurgatorio&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:left;">Fato:</p>
<p style="text-align:left;">Em<em style="font-size:13px;"> Salvador, no dia 21 de março de 1871, </em><span style="font-size:13px;">O Alabama</span><em style="font-size:13px;"> noticiava: “Aguadeiras: soube que as africanas fizeram uma coligação?” O que o jornal abolicionista chamava de “coligação” foi nada menos que o boicote das aguadeiras do Terreiro de Jesus ao guarda do chafariz dessa região — um dos mais importantes postos de abastecimento da cidade — que “por antipatia” a elas exigira “mais um vintém” pela água derramada, além de proibir que “lavassem a cara ou que arrastassem os barris”.*</em></p>
<p style="text-align:center;">***</p>
<p>Era uma terça-feira de março, e as notícias corriam devagar naqueles tempos. Ninguém estava sabendo que, no fim de semana, a França virara de ponta-cabeça com a instauração da Comuna de Paris. O bochicho no Terreiro de Jesus, área central da cidade de Salvador, tinha outra causa: um grupo de mulheres, todas elas negras, debatia acalarodamente sob a sombra de uma árvore. Cabaças e vasilhas a seus pés.</p>
<p>— Assim não pode, gente! Aquele mequetrefe tá abusando! — disse uma delas.</p>
<p>— Onde já se viu cobrar a mais pra completar a água que derrama de primeira? Queria ver ele subindo essas ladeiras com uma tina equilibrada na cabeça! — disse outra; depois, baixou a voz, falando mais para si: — Queria ver ele fazendo isso o dia todo, todo dia&#8230;</p>
<p>— Com tanta água nesse mundo, o certo era não cobrar nada. Inda mais da gente, que é pobre — falou uma terceira.</p>
<p>— Pior é ele proibir a gente de dar uma refrescada — reclamou uma quarta, abanando-se com uma das mãos e, com a outra, repuxando a blusa de algodão, que o suor lhe pegava ao corpo. — Fica achando que vida de aguadeira é moleza.</p>
<p>— É a gente que bota o de beber na casa das pessoas! — disse uma quinta, a mais afobada. — A gente não pode ser tratada assim! — gritou, encarando à distância o homem fardado, em pé ao lado da fonte. Este franziu o cenho e apertou o punho da espada na bainha. A moça cantarolou: — Ô ô ô ô ô, ou para a exploração, ou ninguém bebe em Salvador!</p>
<p>Dois cavalheiros que passavam pelo local, envergando ternos, chapéus-cocos e bengalas, pararam para observar a algazarra. Quando as amigas conseguiram conter aquela mais exaltada, esses comentaram em voz alta:</p>
<p>— Ora, ora, o que vejo ali senão uma pequena revolução do povo brasileiro! Deveríamos aderir?</p>
<p>— Certamente! Que importam a carestia e a bancarrota das contas públicas depois de tantos gastos com a Guerra do Paraguai? Que importa se um gabinete esteja caindo atrás do outro? Que importa, afinal, o abolicionismo? É preciso hidratar-se antes de tudo! Nossos interesses privados acima dos interesses coletivos!</p>
<p>— É por isso que esse país não vai pra frente!</p>
<p>As mulheres fizeram silêncio para escutá-los. Algumas sorriam, outras não.</p>
<p>— Ajuda nós, senhores! — clamou a primeira. — Fala com o guarda!</p>
<p>Foi a vez de os homens sorrirem.</p>
<p>— Deixem de patacoada e deem-se por satisfeitas que o soldado está só e que, portanto, não as pode ferir. Agora voltem ao trabalho! Não deixem seus senhores e clientes boquissecos, que o calor hoje está de matar.</p>
<p>Dito isso, tomaram o rumo da Praça da Sé, ansiosos por chegarem à Livraria Catilina e compartilharem com os amigos aquele descabido.</p>
<p style="text-align:center;">***</p>
<p style="text-align:left;">Fato:</p>
<p style="text-align:left;"><strong></strong><em style="font-size:13px;">Inconformadas com essa situação, elas deliberaram, após reunião embaixo de “uma das árvores”, não mais comprar água naquele posto. Diante de tal posicionamento, o guarda se viu isolado e foi obrigado a “dar satisfação a cada uma de per si e presenteá-las com duas garrafas de vinho.”*</em></p>
<p style="text-align:left;"><span style="color:#ffffff;">.</span></p>
<h5><span style="color:#808080;">*SCHUMAHER, Schuma.; BRAZIL, Érico Vital. <em>Mulheres negras do Brasil</em>. Rio de Janeiro: Senac Nacional, 2007. p. 42.</span></h5>
<p><span style="color:#ffffff;">.</span></p>
<p style="text-align:right;"><em>Breno Fernandes escreve às terças</em></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/ilpurgatorio.wordpress.com/7109/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/ilpurgatorio.wordpress.com/7109/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=opurgatorio.com&#038;blog=21106966&#038;post=7109&#038;subd=ilpurgatorio&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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			<media:title type="html">Breno Fernandes</media:title>
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		<title>Contrato de cessão dos direitos d&#8217;O Purgatório</title>
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		<pubDate>Mon, 17 Jun 2013 10:07:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Davi Boaventura</dc:creator>
				<category><![CDATA[Porto Alegre]]></category>
		<category><![CDATA[contratos]]></category>
		<category><![CDATA[direitos autorais]]></category>
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		<description><![CDATA[Eu, Davi Oliveira Boaventura, aqui denominado CONTRATANTE, CPF Tal, RG Tal e Tal, residente na Rua Y, no bairro do Bom Fim, em Porto Alegre, declaro para todos os fins jurídicos e prerrogativas legais que, sem ônus financeiro para o CONTRATANTE, adquiro todo o trabalho criativo a ser realizado no site coletivo O Purgatório, entre os [&#8230;]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=opurgatorio.com&#038;blog=21106966&#038;post=7100&#038;subd=ilpurgatorio&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Eu, Davi Oliveira Boaventura, aqui denominado CONTRATANTE, CPF Tal, RG Tal e Tal, residente na Rua Y, no bairro do Bom Fim, em Porto Alegre, declaro para todos os fins jurídicos e prerrogativas legais que, sem ônus financeiro para o CONTRATANTE, adquiro todo o trabalho criativo a ser realizado no site coletivo <strong>O Purgatório, </strong>entre os dias 17 e 24 de junho de 2013, por Saulo Dourado, Breno Fernandes, Carmezim, Alex Rolim, Tatiana Mendonça, Camilla Costa e Ricardo Sangiovanni, aqui denominados CONTRATADOS, que, sob pena de ostracismo literário, deverão subscrever o nome do CONTRATANTE em todos os textos apresentados no período supracitado, com a ressalva que, não havendo disposição contrária em lei específica, os CONTRATADOS se eximem da obrigação para com o CONTRATANTE se, e somente se:</p>
<p>§ Saulo Dourado escrever um texto sobre a tessitura insolvente dos infames que escolhem a literatura enquanto <em>modus operandi</em> da existência, de acordo com as prerrogativas de Wittgenstein;</p>
<p>§ Breno Fernandes evocar Oxum, Orô e Birobidjan para desmunhecar Castro Alves, sob a benção da Secretaria de Turismo do Estado da Bahia;</p>
<p>§ Carmezim poetizar o idílico de Guanambi, deixando Maíra cheia de sorrisos flutuantes;</p>
<p>§ Alex Rolim esbanjar sua malemolência faceira, já pronto para ser o avô legal que joga futebol de botão com seus netinhos;</p>
<p>§ Tatiana Mendonça jantar cobra pensando que era macaco;</p>
<p>§ Camilla Costa rememorar Londres, colorindo céus nublados;</p>
<p>§ Ricardo Sangiovanni quebrar o protocolo, esquecendo o terno no carro, teorizar sobre a predominância do jumento na literatura brasileira e, ainda por cima, entre rebuceteios em São Paulo, ensinar como se enfiar cânulas nas proximidades dos caulezinhos de cada pé de tomate.</p>
<p>Qualquer dúvida posterior será dirimida em foro público a ser estipulado pelas partes. Sendo assim, este contrato entra em vigor no momento de sua publicação e, portanto, subscrevo.</p>
<p>_________________________________<br />
Porto Alegre, 17 de junho de 2013.</p>
<p style="text-align:right;"><em>Davi Boaventura rouba textos, quinzenalmente, às segundas-feiras.</em></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/ilpurgatorio.wordpress.com/7100/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/ilpurgatorio.wordpress.com/7100/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=opurgatorio.com&#038;blog=21106966&#038;post=7100&#038;subd=ilpurgatorio&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Do vintém ao vinagre</title>
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		<pubDate>Sun, 16 Jun 2013 17:40:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ricardo Sangiovanni</dc:creator>
				<category><![CDATA[Salvador]]></category>
		<category><![CDATA[preço do ônibus]]></category>
		<category><![CDATA[protestos]]></category>
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		<description><![CDATA[Sobre esse rebuceteio todo dos protestos contra a alta do preço da passagem em São Paulo, apenas queria registrar &#8211; menos por conhecimento profundo do tema, mais por não tê-lo visto registrado em outra parte com a devida atenção &#8211; que já se quebrou o pau antes no Brasil por razão semelhante a essa de [&#8230;]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=opurgatorio.com&#038;blog=21106966&#038;post=7104&#038;subd=ilpurgatorio&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Sobre esse rebuceteio todo dos protestos contra a alta do preço da passagem em São Paulo, apenas queria registrar &#8211; menos por conhecimento profundo do tema, mais por não tê-lo visto registrado em outra parte com a devida atenção &#8211; que já se quebrou o pau antes no Brasil por razão semelhante a essa de agora.</p>
<p>Bem antes dos vinte centavos de hoje, vinte réis a mais no preço do bonde levaram a população do Rio capital imperial a uma grita generalizada, que perturbou a ordem naturalizada das coisas. Isso foi entre dezembro de 1879 e janeiro de 1880, e o movimento ficou conhecido como Revolta do Vintém &#8211; que era como a moeda de 20 réis, a de menor valor à época, era chamada.</p>
<p>Bem antes dos trabalhadores e estudantes justissimamente indignados de hoje, o pessoal indignado daquela época &#8211; sobretudo quem morava longe para pagar aluguel mais barato, e que por isso dependia do transporte público para ir ao Centro ganhar a vida &#8211; não engoliu o aumento do preço da passagem, arbitrado da noite para o dia, desatrelado a qualquer melhoria na qualidade do serviço. E resolveu ir protestar no meio da praça, no meio da rua.</p>
<p>Isso porque bem antes do aumento injustificado de hoje &#8211; afinal, se por um lado R$ 0,20 significam menos que a inflação do último ano, por outro, se considerarmos a inflação acumulada em 20 anos, a passagem de ônibus em SP deveria custar R$ 2,16 em vez de R$ 3,20 &#8211; , o aumento injustificado daquela época caiu em desgraça entre o povo. Porque o acréscimo fora idéia da <em>intelligentsia</em> imperial, um subterfúgio safado para fechar o rombo das contas de D. Pedro II.</p>
<p>Dom Pedro II, bem antes que o Alckmin de hoje, mandou a polícia reprimir a revolta do povo. E bem antes que o Haddad de hoje, resolveu recuar e dizer que aceitava sim conversar com os revoltosos &#8211; mas só quando o pau já estava comendo e já era tarde demais.</p>
<p>Bem antes da polícia violenta de hoje, a polícia violenta daquela época desceu o sarrafo nos manifestantes &#8211; estimados em cerca de 5 mil, o que resulta em expressivos 2,5% da população urbana do Rio de então. E como inexistisse munição menos-letal, a polícia disparou balas de verdade mesmo contra o povo &#8211; morreram ao menos três &#8211; e atiçou ainda mais a raiva justa que o povo já sentia dela.</p>
<p>Sim, porque, bem antes do povo de hoje, o povo daquela época já torcia a cara para a polícia. Porque polícia afinal nasceu no Brasil menos para combater a criminalidade, mais para reprimir e vilanizar os costumes da gente comum. Polícia naquele tempo, bem antes de hoje, já servia no mais das vezes para enquadrar nos rigores da lei, conter, dispersar todo tipo de manifestação (política, social, cultural) que viesse do povo. E os policiais de então, bem antes que os de hoje, eram quase sempre gente comum convertida, a troco de ridícula paga e nenhum preparo, em máquinas de bater, prender e matar semelhantes seus.</p>
<p>De maneira que, bem antes das barricadas, das vidraças quebradas e das civilizadíssimas bombas de vinagre de hoje, o bicho pegou &#8211; e feio &#8211; naquela época. O povo tacou fogo nos bondes, arrancou os trilhos, e esfaqueou os pobres dos burros (sempre sobra para eles!) que os puxavam gentilmente todos os dias. Atacou a polícia, é verdade &#8211; mas pior que essa violência era a violência original, que o Estado cometia contra eles todos os dias.</p>
<p>Bem antes do eventual proveito político que pessoa ou partido possa retirar das manifestações de hoje, houve quem retirasse proveito político da manifestação pelo vintém de então. Os republicanos utilizaram-se dos protestos para ganhar força &#8211; é óbvio. Muito embora, bem antes de hoje, quem participou de fato daqueles protestos não o tenha feito por motivação político-partidária anterior aos vinte réis, porque eles faziam &#8211; como fazem os vinte centavos de hoje &#8211; diferença mesmo.</p>
<p>Aí, quando viu que a coisa tinha azedado de vez, bem antes que a grande imprensa conservadora de hoje, a grande imprensa conservadora daquela época não gostou. Mas sobre isso, à guisa de preservar o amigo leitor de algum sentimento menor que porventura persista em meu espírito, abstenho-me de falar &#8211; dou voz ao historiador Ronaldo Pereira de Jesus: “A imprensa mais conservadora falava na convocação de mobilizações de protesto, apelava para a manutenção da lei e da ordem, lembrava que o governo havia tolerado sempre a manifestação de “representações respeitosas” e, finalmente, pedia para que os descontentes, ao invés de protestar, direcionassem sua energia para a eleição de bons políticos que se ocupassem em defender os verdadeiros interesses da maioria da população.”</p>
<p>Qualquer semelhança não será mera coincidência, senão prova inconteste de que vivemos no Brasil, no mesmo Brasil de há mais de cem anos atrás.</p>
<p>Aliás, minto &#8211; há sim uma diferença: ao contrário do professor de história e da estudante de direito de hoje, quem liderou a Revolta do Vintém desde o início foi um jornalista &#8211; que tinha aliás um sugestivo sobrenome: Trovão. Reputo como coisa triste o fato de já não ser primazia de nossa profissão liderar semelhantes protestos, colegas. Mas, para já, não polemizemos: embora para alguns tenha sido preciso esperar até que as balas da polícia pegassem nos olhos de colegas da imprensa, é sempre tempo de posicionar-se do lado certo.</p>
<p style="text-align:right;"><em>Ricardo Sangiovanni escreve aos domingos. O texto de hoje é dedicado aos amigos Daniel Cabral  - a quem agradeço por ter-me pautado o tema &#8211; e Igor Soriano &#8211; que pediu uma nossa visão dessa história</em></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/ilpurgatorio.wordpress.com/7104/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/ilpurgatorio.wordpress.com/7104/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=opurgatorio.com&#038;blog=21106966&#038;post=7104&#038;subd=ilpurgatorio&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Pensamentos estrangeiros</title>
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		<pubDate>Sat, 15 Jun 2013 10:00:08 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Camilla Costa</dc:creator>
				<category><![CDATA[Berlim]]></category>
		<category><![CDATA[estrangeirismos]]></category>
		<category><![CDATA[silêncio]]></category>

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		<description><![CDATA[por Guilherme Athayde Há algo no silêncio que incomoda. Sem referências à mudez que acalanta algum respeito, nem à tristeza quando já não há palavras que possam mudar qualquer coisa. É o silêncio da recusa, aquele que impede o entendimento e abre um buraco negro de dúvidas. O silêncio que desorganiza, mas não consegue rearranjar [&#8230;]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=opurgatorio.com&#038;blog=21106966&#038;post=7094&#038;subd=ilpurgatorio&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:right;"><em>por Guilherme Athayde</em></p>
<p>Há algo no silêncio que incomoda. Sem referências à mudez que acalanta algum respeito, nem à tristeza quando já não há palavras que possam mudar qualquer coisa. É o silêncio da recusa, aquele que impede o entendimento e abre um buraco negro de dúvidas. O silêncio que desorganiza, mas não consegue rearranjar o caos.</p>
<p>É com a palavra que me afasto dos nossos instintos irracionais e tento dar forma a existir. Afastar a ignorância profunda e ter a capacidade de reverter a timidez em ousadia, de fazer ideias tomarem dimensões e superfícies, de organizar, de compartilhar e ver que inevitavelmente temos algo em comum. A língua em todas as suas nuances, o esforço da palavra em todos os seus usos inesgotáveis, suas combinações infinitas.</p>
<p>Não compreender isso é dar vazão à força desorientada da revolta: um discurso de instintos, de não saber para onde se vai. A perdição de uma luta solitária, que faz do lado oposto o inimigo. O silêncio profundo dos meus pensamentos em eco dento da cabeça, que jamais tomarão uma forma propriamente dita, porque nunca existirão enquanto matéria e nunca se desprenderão dessa massa confusa que é não entender.</p>
<p>O silêncio dessa manhã enquanto repito todas aquelas dúvidas que não têm solução, porque ainda não existem. Não existem sílabas, nem frases, nem ao menos letras. São pensamentos estrangeiros.</p>
<p style="text-align:right;"><em>Guilherme Athayde substitui Camilla Costa e Moreno Pacheco neste sábado</em></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/ilpurgatorio.wordpress.com/7094/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/ilpurgatorio.wordpress.com/7094/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=opurgatorio.com&#038;blog=21106966&#038;post=7094&#038;subd=ilpurgatorio&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>O privilégio</title>
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		<pubDate>Fri, 14 Jun 2013 10:00:59 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Tatiana Mendonça</dc:creator>
				<category><![CDATA[Uncategorized]]></category>
		<category><![CDATA[laços de família]]></category>

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		<description><![CDATA[Estava passando um rádio velho na televisão e minha mãe lembrou que na casa dela de criança tinha um igualzinho. E que meu vô sempre muito sabido conseguiu fazer uma ligação com o alto-falante pra rua toda escutar, porque não cabia mais tanta gente naquele espaço apertado. Devia ser jogo, porque ele ama muito um [&#8230;]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=opurgatorio.com&#038;blog=21106966&#038;post=7088&#038;subd=ilpurgatorio&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Estava passando um rádio velho na televisão e minha mãe lembrou que na casa dela de criança tinha um igualzinho. E que meu vô sempre muito sabido conseguiu fazer uma ligação com o alto-falante pra rua toda escutar, porque não cabia mais tanta gente naquele espaço apertado. Devia ser jogo, porque ele ama muito um toque de bola. Dito assim dessa maneira. Não faz muita questão de gol, mas gosta de ver os passes precisos como se fossem obras de gente divina que não existe.</p>
<p>Nessa época, a atração da casa, além do rádio, era o filtro de água e os copos de alumínio que ficavam em volta. Pobre assim. Nas noites muito compridas, com os sacos grandes de feijão de corda pra debulhar, ele ficava emendando uma história na outra, todas que ele mesmo inventava, e assim ia embalando os meninos pra ninguém dormir.</p>
<p>Eram muitos, precisamente 15. Ele conta isso achando graça. E também do dia que comeu carne de cobra por enganação porque chegou numa casa para passar a noite por causa de uma chuva e na hora da janta disseram que era carne de macaco (!) mas no outro dia ele bem viu no varal o courinho estendido. Eu tenho pena sua porque não sabe como é a risada que ele dá no final para arrematar o caso que repete sempre porque se esquece de que já contou e porque a gente sempre faz questão de escutar.</p>
<p>E tem outro, do fantasma que apareceu em casa com o agravante de ele ser casado há mais de 50 anos com  a mulher mais medrosa do mundo inteiro, minha vó. Ela estava ouvindo de noite o barulho da cozinha e o mandava ir lá ver o que era. Ele levantava porque obedece sempre, é um amor que não cabe nessa vida, e aí ligava a luz, não era nada. Voltava. Daí a pouco de novo. E isso assim vezes sem fim. Até que resolveu não ligar a luz e sentiu uma coisa se mexendo. Era a bacia que se movia. Meu vô é muito corajoso muito muito mas ficou com medo. Ele confessa. Era o fantasma, não ia ter o que fazer. Mas era sua obrigação enfrentar e foi lá ter com ele. Quando levantou a bicha, um gato muito assustado saiu de dentro dela.</p>
<p>Meu avô foi abandonado pelos pais quando ainda era um bebê quase e depois casou fugido porque minha bisa não queria ter preto na família. Não carrega mágoa. Se você algum dia o encontrar ele vai dar um jeito de dizer três ou quatro ou cinco vezes que é um privilégio ter tudo que tem.</p>
<p>O privilégio é nosso, vô.</p>
<p style="text-align:right;"><em>Tatiana Mendonça escreve às sextas</em></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/ilpurgatorio.wordpress.com/7088/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/ilpurgatorio.wordpress.com/7088/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=opurgatorio.com&#038;blog=21106966&#038;post=7088&#038;subd=ilpurgatorio&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Amor sem crediário</title>
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		<pubDate>Thu, 13 Jun 2013 10:00:47 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Alex Rolim</dc:creator>
				<category><![CDATA[Salvador]]></category>
		<category><![CDATA[capitalismo]]></category>
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		<category><![CDATA[Copa do Mundo]]></category>
		<category><![CDATA[dia dos namorados]]></category>
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		<description><![CDATA[-Eu odeio o dia dos namorados. Você, possivelmente, ouviu ou pronunciou essa frase na última semana. É um mote bastante utilizado nesta época, quando somos bombardeados com anúncios de amores pré-pagos, paixões instagramizadas em outdoors que sorriem pelas avenidas e propagandas que vomitam cupcakes recheados de fofismo. Felicidade a dois  para ser comprada e exibida [&#8230;]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=opurgatorio.com&#038;blog=21106966&#038;post=7072&#038;subd=ilpurgatorio&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>-Eu odeio o dia dos namorados.</p>
<p>Você, possivelmente, ouviu ou pronunciou essa frase na última semana. É um mote bastante utilizado nesta época, quando somos bombardeados com anúncios de amores pré-pagos, paixões instagramizadas em outdoors que sorriem pelas avenidas e propagandas que vomitam cupcakes recheados de fofismo. Felicidade a dois  para ser comprada e exibida nas vitrines do amor. Metamorfoseia-se – ‘na minha casa ou na sua?’ pelo – ‘é débito ou crédito?´</p>
<p>Paciência. Mas prometo que esta crônica não cairá na vã controvérsia entre o esmaecimento do puro sentimento amoroso nos tempos de crediário fácil. Nem no nexo barato entre a data comercial e a fugacidade do amor moderno. A questão que desejo suscitar é um pouco mais incisiva: Colocar etiqueta no amor que idealizamos é padronizar e limitar a forma de enxergarmos o amor.</p>
<p>Uma grande amiga minha, Rafa Soledade, sempre vociferou contra este tipo de padronização. “De que adianta um dia de amor e um ano de brigas?”, disse-me ontem. Mesmo sendo agraciada com as benesses de um relacionamento estável, ela segue com a mesma firmeza opositora a comemoração comercial dos tempos de solteira. “Todo mundo na rua com cara de apaixonado. E no outro dia quebra o maior pau”.</p>
<p>Citei a amiga para que, não pensem vocês, minha opinião seja reflexo exclusivo da condição de “solteiro convicto” que o amigo-irmão Gildemar me atribui. Até porque a única convicção que tenho na vida, é justamente de não ser convicto em nada.</p>
<p>Talvez exista um tantinho de mágoa em ter um dos primeiros namoros terminados justamente poucos dias após o 12 de junho. O ano era 1998, clima de Copa do Mundo, e presenteei aquela morena linda com quem namorava, do sorriso de covinhas e corpo violão, com uma camisa da seleção de Zagallo. Na verdade, foi um gesto meio desesperado, pois já havia percebido que havia entrado água no nosso bote do amor. Não deu certo. E quando Brasil foi destroçado por Zidane na final, pouco me importei. Um coração machucado não dá importância a coisas mixurucas como torneios mundiais de futebol.</p>
<p>Acho que &#8211; se vocês ainda não perceberam &#8211; me perdi no fio da história. Pois queria mesmo era dizer que o massacre promocional do dia dos namorados é uma maneira tosca de delimitar nossa forma de amar. Sim, porque exige provas, presentes, lembranças. Como se o amor não fosse construído por gestos cotidianos, flertes intermitentes, e até pelas discussões bobas. Como se o amor escolhesse operadora para usar bônus, assistisse comédias românticas bobas, jantasse peixe cru para parecer chique, segurasse o tesão na fila inconveniente do motel, brindasse com vinho barato. Sim, o amor faz isso, mas pode &#8211; e deve fazer &#8211;  muito mais.</p>
<p>E sim, existe amor em estar sozinho nesta data. É uma forma de valorizar os momentos e pessoas que construíram nossa história e aquelas que ainda  participarão dela. O dia dos namorados era para ser muito mais que um amigo secreto entre pessoas que acreditam se amar. Mas, obviamente isso não venderia de forma satisfatória.</p>
<p>Odiar o dia dos namorados, ou o modelo capitalista que ele emula, talvez não seja a forma mais romântica de enxergar o amor. Mas certamente é a menos cínica.</p>
<p style="text-align:right;"> <em>Alex Rolim escreve às quintas</em></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/ilpurgatorio.wordpress.com/7072/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/ilpurgatorio.wordpress.com/7072/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=opurgatorio.com&#038;blog=21106966&#038;post=7072&#038;subd=ilpurgatorio&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Para este dia</title>
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		<pubDate>Wed, 12 Jun 2013 11:20:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Carmezim</dc:creator>
				<category><![CDATA[Guanambi (BA)]]></category>
		<category><![CDATA[amor]]></category>
		<category><![CDATA[areia]]></category>
		<category><![CDATA[cheiro]]></category>
		<category><![CDATA[pudim de leite]]></category>
		<category><![CDATA[vela amarela]]></category>

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		<description><![CDATA[Para Maíra Comer e comer e saborear o teu nome. Quando manhã, suspirar doces desejos e grudá-los no espelho do banheiro &#8211; eles vão se misturar aos teus cabelos. Abrir a janela que dá pra praça e que da praça dá pra areia e que da areia dá pra o mar e na areia melar [&#8230;]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=opurgatorio.com&#038;blog=21106966&#038;post=7070&#038;subd=ilpurgatorio&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p style="text-align:right;"><em>Para Maíra</em></p>
<p>Comer e comer e saborear o teu nome.</p>
<p>Quando manhã, suspirar doces desejos e grudá-los no espelho do banheiro &#8211; eles vão se misturar aos teus cabelos.</p>
<p>Abrir a janela que dá pra praça e que da praça dá pra areia e que da areia dá pra o mar e na areia melar os pés para depois lavá-los.</p>
<p>E escutar Arnaldo Antunes para dar gosto ao dia. &#8220;Sujar o pé de areia pra depois lavar na água / Lavar o pé na água pra depois sujar de areia / (&#8230;) Respirar / Sentir o sabor do que comer / Caminhar / Se chover, tomar chuva / Não esperar nada acontecer / Ser gentil com qualquer pessoa&#8221;.</p>
<p>Acender uma vela amarela para que tu, sorrindo, digas do teu pedido para o nosso futuro, colorido e esperado. Assopre e assim o cheiro da tua boca se enroscará no meu pescoço e na minha nuca e na minha testa e na minha pele.</p>
<p>Na mesa, pudim de leite, condensado pelo nosso desejo em profusão.</p>
<p>Brincar de pega-pega com a distância e sempre ganhar, tudo métrica, rima e nunca dor.</p>
<p>E não traduziremos, questionaremos, enquadraremos o amor, posto que ele é vivo e se traduz, em língua própria, nessa sinfonia irrompendo meu peito pra desaguar no seu.</p>
<p>Para além, o dia não finda: se estende e se renova no meu olhar e no teu, juntinhos.</p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/ilpurgatorio.wordpress.com/7070/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/ilpurgatorio.wordpress.com/7070/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=opurgatorio.com&#038;blog=21106966&#038;post=7070&#038;subd=ilpurgatorio&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>A sereia do dique</title>
		<link>http://opurgatorio.com/2013/06/11/a-sereia-do-dique/</link>
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		<pubDate>Tue, 11 Jun 2013 10:00:32 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Breno Fernandes</dc:creator>
				<category><![CDATA[Salvador]]></category>
		<category><![CDATA[Dique do Tororó]]></category>
		<category><![CDATA[novas lendas urbanas]]></category>
		<category><![CDATA[orixás feat mitologia grega]]></category>

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		<description><![CDATA[Antes de frear de vez, o piloto fez uma gracinha, pôs a descarga da moto para rugir. Talvez nem tivesse girado tanto o acelerador, mas o silêncio das quatro da manhã projetou o ronco da máquina vale acima: uma avalanche sonora em sentido contrário. — Acorda, Tororó! — gritou Filipe. Jurreina saltou da garupa, surpreendentemente [&#8230;]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=opurgatorio.com&#038;blog=21106966&#038;post=7045&#038;subd=ilpurgatorio&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Antes de frear de vez, o piloto fez uma gracinha, pôs a descarga da moto para rugir. Talvez nem tivesse girado tanto o acelerador, mas o silêncio das quatro da manhã projetou o ronco da máquina vale acima: uma avalanche sonora em sentido contrário.</p>
<p>— Acorda, Tororó! — gritou Filipe.</p>
<p>Jurreina saltou da garupa, surpreendentemente equilibrada para quem estava de salto e tinha bebido todas aquelas roskas; a garota ajudou a enxotar o silêncio com uma gargalhada.</p>
<p>O rapaz começou a agarrá-la ali mesmo no acostamento; Jurreina, todavia, conseguiu se esquivar e, sempre gargalhando, saltitou atabalhoadamente encosta abaixo, até chegar ao pequeno píer incrustado nas margens do dique. Ao longe, viam-se as estátuas de orixás, no meio da represa. Parada na ponta do píer, de braços abertos, Jurreina sentia-se flutuar como os deuses.</p>
<p>Uma mão agarrou sua cintura; lábios colaram-se à nuca, para dali circundarem o pescoço. Jurreina virou-se de frente para Filipe, e ele aproveitou o abraço para apalpar seu bumbum. Por dentro da calça.</p>
<p>— Ah, eu vim do Wet até aqui na gana de fazer isso, neguinha&#8230;</p>
<p>— Foi bom demais o show, né? — comentou ela, deixando que a outra mão dele enveredasse por debaixo de sua blusa.</p>
<p>— Bom. Foi bom. Boa demais é você! — riram juntos daquele chiste.</p>
<p>Num instante, estavam seminus, com Filipe ajoelhado à frente dela, vendo-a cantar e dançar, requebrando as cadeiras, enquanto ele estapeava o próprio rosto e esmurrava o peito, tão ébrio de testosterona estava quanto a moça, de álcool.</p>
<p>— Mulé, que bunda maravilhosa é essa?! Tô de cara! Na moral, você é mais bonita que Oxum, a rainha da beleza. Era você que devia tar ali, ó, naquele pedestal.</p>
<p>— Pois devia mesmo! — Jurreina soluçou de rir. Em seguida, afastou as pernas uma da outra; agachou o tronco até as mãos tocarem os tornozelos e ela conseguir ver as estátuas dos orixás de ponta-cabeça; e engatou a velocidade três ou quatro do créu. — Pode olhar, galera! Pode olhar. Que nem Oxum me barra&#8230;</p>
<p>O jato d’água que atingiu o píer interrompeu na hora a coreografia. Toda molhada, Jurreina tirou os cabelos do rosto e engoliu o cuspe que estava a caminho quando viu a mulher que pairava acima de suas cabeças, de braços cruzados e cara de braba.</p>
<p>— Que gostosa! — balbuciou Filipe.</p>
<p>— Quer dizer que você se acha mais bonita que eu — comentou a mulher voadora. — E ainda tem a cara-de-pau de vir dizer isso aqui, na minha casa, a essa hora da madrugada.</p>
<p>— O-Oxum? — gaguejou Jurreina. A outra fez uma reverência. — O-Oxum, m-me desculpe. Não f-foi a sério, é que eu tô meio bebinha, n-não é, Filipe? — Jurreina cutucou o companheiro, mas este estava petrificado. Ela então o estapeou. — Fala, misera!</p>
<p>— F-Foi brincadeira, mesmo, dona&#8230; — contemporizou o rapaz, saindo do torpor.</p>
<p>Oxum gargalhou. Enquanto ria, seu corpo subia e descia no ar, repetidamente, como se ela saltasse numa cama elástica invisível.</p>
<p>— Ah, sendo assim, tudo bem, tudo de boa na lagoa! — disse a orixá por fim. — Eu adoro brincadeira! Todo mundo gosta, não é mesmo?</p>
<p>— É, s-sim! — Jurreina sorriu sem graça.</p>
<p>— Pois então dá licença. Se vocês já terminaram sua brincadeirinha, agora é minha vez — Oxum afastou as pernas uma da outra e pôs os braços à frente do corpo, esticados, as mãos espalmadas. — Receba, periguete!</p>
<p>Um clarão repentino cegou Jurreina, não a deixando ver o que se chocou contra seu peito e a derrubou no chão. Quando o relâmpago terminou, Oxum havia sumido, bem como Filipe; ao lado dela só havia uma carpa, debatendo-se sobre a madeira do píer. Jurreina tentou levantar-se, mas não sentiu as pernas.</p>
<p style="text-align:center;">***</p>
<p>Os três homens não foram embora tão logo acabaram de fumar o baseado. Jurreina sorriu satisfeita; dentro d’água, a massa de escamas esverdeadas que a envolvia da cintura para baixo se agitou. Atenta, observou um dos homens se afastar para fazer xixi junto a uma árvore. Dos dois que permaneceram sentados, um dormitava, e o único que olhava para a água parecia não a ver, parecia mirar além. Virou-se para ver o que estava atrás de si, o sorriso transformou-se em esgar. <em>Oxum!</em>, murmurou, sentindo um azedo no fundo da garganta. Era o máximo que seu corpo produzia, agora, quando pensava na divindade ou revia sua estátua.</p>
<p>De início, as lágrimas choradas foram bastantes para fazer o dique transbordar. Ao se dar conta de que as vertia em vão, os olhos da moça assorearam. Naquela mesma noite, chegara à conclusão de que, se Oxum não era piedosa consigo, tampouco ela o seria com Oxum. Então Jurreina incumbiu a si a missão de fazer com que todos os homens da cidade repetissem o que aquele antigo peguete havia dito antes de ser transformado em peixe: que ela era, sim, mais bonita que a orixá. Ai dos que não o ousassem dizer! Ela os tragaria para o fundo do dique.</p>
<p><span style="color:#ffffff;">.</span></p>
<p style="text-align:right;"><em>Breno Fernandes escreve às terças</em></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/ilpurgatorio.wordpress.com/7045/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/ilpurgatorio.wordpress.com/7045/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=opurgatorio.com&#038;blog=21106966&#038;post=7045&#038;subd=ilpurgatorio&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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			<media:title type="html">Breno Fernandes</media:title>
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		<title>Da economia dos espaços: eu vou</title>
		<link>http://opurgatorio.com/2013/06/10/da-economia-dos-espacos-eu-vou/</link>
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		<pubDate>Mon, 10 Jun 2013 10:00:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Saulo Dourado</dc:creator>
				<category><![CDATA[Salvador]]></category>
		<category><![CDATA[biblioteca]]></category>
		<category><![CDATA[Crônica]]></category>
		<category><![CDATA[ebooks]]></category>
		<category><![CDATA[universo]]></category>

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		<description><![CDATA[Quando questionado pela razão de nunca mudar-se do norte para o sudeste, o crítico e filósofo Benedito Nunes ironicamente respondeu: “É que eu não tenho como levar a minha biblioteca&#8230;”. Na sua casa da Travessa da Estrela, em Belém, havia mais de cinco cômodos só para livros. De fato, uma mudança de mais de quatro [&#8230;]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=opurgatorio.com&#038;blog=21106966&#038;post=7038&#038;subd=ilpurgatorio&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Quando questionado pela razão de nunca mudar-se do norte para o sudeste, o crítico e filósofo Benedito Nunes ironicamente respondeu: “É que eu não tenho como levar a minha biblioteca&#8230;”. Na sua casa da Travessa da Estrela, em Belém, havia mais de cinco cômodos só para livros. De fato, uma mudança de mais de quatro mil quilômetros seria trabalho para caminhões-cegonha. Escuto amigos que precisam ir de vez para outras cidades se lamentarem pelos volumes que tiveram de deixar, com a esperança de nos próximos 23kg de bagagem conseguirem pelo menos recuperar os favoritos. Outros que nunca conseguiram e lamentam o que Benedito não gostaria.</p>
<p>Inebriado pelo sentimento da falta que não tenho, abri a porta da estante onde acumulo livros por anos. Tive uma vertigem, para a minha surpresa. Com elas me vi pela primeira vez fixado: uma biblioteca não deixa de ser uma proposta de fixação. Borges diz que por milênios o território do povo hebraico foi um livro. O meu são trezentos, cujos caixotes eu precisarei carregar para onde for, se for.  E nessas horas vemos que um homem é mesmo atravessado por seu tempo: há décadas isto me daria o sentimento de construção de um patrimônio material, hoje, quando objetos se desprendem da matéria, soa-me como um empecilho.</p>
<p>Eu que planejo receber faturas só por e-mails para pagá-los pela internet, eu que encontro apenas os comprovantes de pagamento já digitalizados, eu que mantenho uma agenda virtual para me lembrar dos compromissos e que admiro o botão “localizar” para fazer imediatamente o que demoro meia hora entre gavetas, tenho o sonho do acesso disseminado e imediato de conteúdos, ao que me vejo infiltrado por uma época em desenvolvimento. <a title="A nuvem" href="https://skydrive.live.com/?cid=179657ea10299fd8&amp;id=179657EA10299FD8%21392" target="_blank">Uma nuvem de livros eletrônicos</a> que me mostraram, com o mesmo número de livros que guardo em papel e capa na estante, recebeu a minha vertigem inversa. Fechei o punho comemorativo e murmurei “enfim!”.</p>
<p>O espaço será o tema do nosso século, assim como o tempo já foi de outro, disse-me um colega. Já um tio insiste que devemos mesmo cuidar do espaço terrestre, mas só até o ponto que este der e tivermos a possibilidade de nos espalharmos pelo universo.  Ou tudo isso faz parte da tese que escutei de um feirante na mesma Belém de Benedito Nunes, “baiano não gosta de levar nada na mão”, o que se comprova por <a title="A música" href="http://www.youtube.com/watch?v=p4srizmb8B4" target="_blank"><i>Alegria, alegria </i></a>de Caetano, ou a galáxia mesma se expande pelo mundo que então se condensa. Nos dois casos, quero levar minha biblioteca no cordão de uma calça branca de flanela.</p>
<p><em>Saulo Dourado escreve, quinzenalmente, às segundas-feiras.</em></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/ilpurgatorio.wordpress.com/7038/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/ilpurgatorio.wordpress.com/7038/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=opurgatorio.com&#038;blog=21106966&#038;post=7038&#038;subd=ilpurgatorio&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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		<title>Jumentos que passam</title>
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		<pubDate>Sun, 09 Jun 2013 10:00:42 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Ricardo Sangiovanni</dc:creator>
				<category><![CDATA[Salvador]]></category>
		<category><![CDATA[burros]]></category>
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		<category><![CDATA[jegues]]></category>
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		<description><![CDATA[Quarta eu cortava pela Mato Grosso para desviar do trânsito quando dei de cara com dois burros no meio da pista. Aliás, burros não: dois jegues, que burro é animal forte e caro, seria burrice minha achar que eram burros em vez de jumentos aqueles dois bichinhos mirrados, esquálidos. Não vou alugar vosso tempo com [&#8230;]<img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=opurgatorio.com&#038;blog=21106966&#038;post=7030&#038;subd=ilpurgatorio&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></description>
				<content:encoded><![CDATA[<p>Quarta eu cortava pela Mato Grosso para desviar do trânsito quando dei de cara com dois burros no meio da pista.</p>
<p>Aliás, burros não: dois jegues, que burro é animal forte e caro, seria burrice minha achar que eram burros em vez de jumentos aqueles dois bichinhos mirrados, esquálidos.</p>
<p>Não vou alugar vosso tempo com reflexões redundantes sobre o quanto a lerdeza daqueles dois animais inverossímeis escancara o tanto que nossa pressa citadina tem de irracional. Isso seria óbvio, seria facilismo &#8211; seria, ademais, inútil, porque segunda-feira lá vamos nós de novo chafurdar na loucura da vida.</p>
<p>Nem vou roubar minutos de vosso domingo descrevendo a fila de carros que atrás do meu e daqueles dois jeguinhos se formou; quanto menos a sinfonia neurastênica de buzinas que começou a zurrar; tampouco o quanto os jumentos não estavam nem aí para a pressa da motoristada, tendo prosseguido devagar feito mulas; menos ainda o tempão que durou aquela cena absurda até que eu conseguisse uma brecha para ultrapassar os bichos (que, apesar de lentos, respeitavam a faixa correta da pista, como muitos motoristas aliás não sabem fazer). Seria aproveitar-me do pitoresco da cena para fabricar alguma literatura ruim.</p>
<p>Tampouco irei inventar que primeiro maldisse os diabos dos jumentos, que os mandei ao inferno, mas que depois me arrependi, e que caí em mim e passei então a pensar que os verdadeiros jumentos éramos nós, nós os motoristas idiotas. Seria falsificar sensações: apesar da pressa, o que senti mesmo ao ver aqueles dois burros foi uma enorme alegria porque, já na quarta, havia encontrado tema para a crônica dominical.</p>
<p>Prefiro então, em vez disso tudo, aproveitar o ensejo para atualizar-lhes de meu rol de referências sobre jumentos e afins &#8211; a ver se assim vou acumulando erudição verdadeira sobre pelo menos um objeto de estudo nessa vida.</p>
<p>Pois bem: quando o assunto é jumento &#8211; reparem minha fleuma de pesquisador &#8211; convém lembrar que:</p>
<p>1) é de mau agouro maldizer o jumento, por tratar-se de animal bíblico. Pois foi no lombo do jumento que Maria Mãe-de-Deus fugiu para ter o menino Jesus, e foi novamente nas costas do bicho que o Cristo entrou em Jerusalém e pôde ser visto por todos no Domingo de Ramos;</p>
<p>2) mas muito antes disso, foi por ter espancado sua jumenta que Balaão foi fulminado por Jeová: o animal desviava o caminho porque seguia um chamado do Senhor; mas Balaão, insensível ao evidente sinal de Deus manifestado na atitude do bicho, sentou-lhe a ripa na jumentinha para que ela tornasse à estrada &#8211; depois, chimbou;</p>
<p>3) já se morreu por um jumento: morreu o pobre Zé do Burro, da história de Dias Gomes, quando tentou entrar na igreja de Santa Bárbara para pagar promessa jurada a Iansã, que lhe salvara a vida do bicho. Mas o padre não deixou, porque era promessa para bicho. (Dias, porém, deveria ter batizado o personagem de Zé do Jegue, e não do Burro, porque um homem humilde como Zé dificilmente teria dinheiro para comprar um burro);</p>
<p>4) o animal aparece na obra de Machado de Assis. Machado, em vez do ar superior que têm os cavalos, prefere a mansidão filantropa dos burros, que naquele tempo puxavam as carroças que traziam a água, o carvão, as frutas e hortaliças, as noras, os genros e os bondes. “Dizem que é teimoso. (&#8230;) Mas ser teimoso é algum pecado?” (Novamente desconfiamos tratar-se não apenas de burros, mas também de jumentos, haja vista a referência à &#8216;teimosia&#8217;, típica dos segundos);</p>
<p>5) também outro mestre das letras, Olavo Bilac, homenageou os quadrúpedes trabalhadores. Em “Cavalo de Tílburi”, ele destaca as virtudes dos bichos que puxam carroças, eternos esfolados que jamais chegam a ter a vida mansa que levam os cavalos de corrida. (Outra vez: pela despesa que dá um cavalo, supomos que Bilac se referia a burros, e por que não a jumentos, tendo usado a palavra “cavalo” apenas para acentuar a oposição a seus primos ricos.</p>
<p>Como podem perceber, o tema é antigo, é deveras nobre &#8211; <a href="http://opurgatorio.com/2011/04/03/morre-o-homem-fica-o-burro/" target="_blank">não é a primeira vez que trato do assunto</a> aqui, e certamente tornarei a ele. Por ora encerro, sempre aberto a quem queira contestar minhas informações ou contribuir com o debate. E sobretudo grato a Deus pela chance &#8211; na cidade grande, nesses tempos que correm &#8211; de ver jumentos passarem.</p>
<p style="text-align:right;"><em>Ricardo Sangiovanni escreve aos domingos</em></p>
<br />  <a rel="nofollow" href="http://feeds.wordpress.com/1.0/gocomments/ilpurgatorio.wordpress.com/7030/"><img alt="" border="0" src="http://feeds.wordpress.com/1.0/comments/ilpurgatorio.wordpress.com/7030/" /></a> <img alt="" border="0" src="http://stats.wordpress.com/b.gif?host=opurgatorio.com&#038;blog=21106966&#038;post=7030&#038;subd=ilpurgatorio&#038;ref=&#038;feed=1" width="1" height="1" />]]></content:encoded>
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