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Sou contra o paparazzismo. Não desculpo a desculpa do “gente famosa em local público” para fotografar. Até porque nem sempre o local é público.

Mas nessa relação, raras exceções, não há vítimas. Famosos, metidos a famosos e pessoas que respondem pelo nome genérico e cada vez mais descaracterizado de “artista” sabem se aproveitar das câmeras – ou melhor: gostam de exercer controle sobre a atenção que têm.

Só divulgar o que quer e ter máxima atenção sobre isso, eis um traço comum das “celebridades”. É pelo menos altamente contraditório buscar estar na foto quando lhe convém, e reclamar da invasão de privacidade quando não é o caso.

Como falei acima: é um jogo em que não há vítimas, nem acertos. Exibir-se de bom grado não justifica ser invadido. Não justifica, mas compreende-se que aconteça: afinal, assim como o retratado se alimenta de sua foto estampada, quem faz o retrato se alimenta da foto tirada. Paparazzi ultrapassam o limite, mas muitas vezes, se eles vão até o quarto é porque, um dia, as celebridades lhe convidaram para conhecer a sala.

E nós que não estamos em nenhum dos dois lados? Tampouco acredito que sejamos passivos nesta guerra.

Vejamos o último Barcelona e Real Madrid, o derby mais espetacularizado do século. O que ficou do jogo não foi o placar nem a briga entre os jogadores, no final: foi o puxão de orelha (literal) que José Mourinho deu em Tito Vilanova. O primeiro é o técnico do Real; o segundo, assessor técnico do Barça.

Mourinho, mais bem pago do mundo na função, arrogante e marketeiro de si, sabia que seu ato estava sendo filmado. E não me pareceu, pela imagem, um impulso: ele caminha, agride, e volta para trás dos seus. Sabia, sim, que todos “estavam a ver” o que fazia. E fez. Fez porque, como ele mesmo disse uma vez, ele é um “special one”.

Mourinho fez “porque pode”. Fez porque subiu num posto tão alto, do qual é difícil tirá-lo. Difícil por quê? Porque ele têm apoio e platéia. O apoio é da mídia, que o ilumina, comenta, critica, dedica-lhe sermões e páginas morais. A platéia, sim, somos nós.

Porque celebridades não se fazem sozinhas e porque o espetáculo, por definição, depende do espectador. Porque é menos interessante – e aqui unem-se mídia e público – criticar Mourinho por sua arrogância do que pensar de onde ele vêm, que sistema é esse que o produz e reproduz. Menos interessante, menos eficaz mas mais comum: há uma certa vontade de moralizar os famosos, de achar mais absurdo um desvio deles do que um nosso.

Não se quer o fim de gente como Mourinho. O que se quer é que eles nos satisfaçam. Celebridades existem, em muito, porque gente como nós existe: quem os assiste, quem dá a atenção necessária para que eles se mantenham lá. Quem, enfim, se mantém acrítico (quando não animado) diante do espaço que jornais e tevês lhes dão.

Diego Damasceno escreve às terças

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