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– Nei, rapá, cê ta com uma moral da porra!

– Colé, Boca. Lá vem você com história.

Nei tira a mão da cabeça do cliente, máquina três embaixo e quatro em cima. Corte sem ciência. A cadeira é a da ponta da barbearia, perto da porta de vidro da entrada. A do meio está vazia, Carlinhos morreu há pouco tempo, câncer de garganta. Ironia sem tamanho.

– Né migué, não, Nei! Juro pelo amor que tenho a meu Baêa. E é coisa de amor mesmo que tenho pra te dar a ideia.

Depois da cadeira do meio tem a de Toni, aí acaba o espaço. Três cadeiras de salão azuis, fórmicas azuis em detalhes nas madeiras das paredes, uma televisão com imagem sempre chuviscada. Melhorou depois da compra do DVD, mas haja paciência pra tanto Steven Seagal.

Boca é um conta-vantagem descomunal. Volta e meia Nei solta:

– Cê deve ter tanto beiço assim é pra poder contar esse tanto de história enviesada, Boca.

Riem-se, Boca e Nei. Toni acompanha. Os clientes, mergulhados no jornal do dia, na conversa fiada, ou somente escorados nos bancos acolchoados, também esboçam um sorriso.

Nei decide não dar atenção. Pega a lâmina, quebra no meio, encaixa na navalha. O cliente suspende a cabeça, o pescoço esticado.

– Num desenhe, não, Nei. Esse negócio de desenhar a barba não gosto, não.

Cabelo e barba, dá pra tirar 15 reais. Oito do corte, cinco da barba, dois do troco que o cliente sempre deixa pra lá.

– Ela tava cheia de sorrisinho, Nei. Nunca vi assim. Foi só falar seu nome, véi.

– Eu tô ligado na dela, Boca. Fica de vai lá num vai cá, só por detrás daquele balcão. Tô manjando ela, no miudinho. Se ela saísse detrás daquele balcão, mesmo cheirando a carne eu colava nela.

– Tá se declarando, é, Nei?

– Pare de se engraçar, vá, Boca. Te entupo todo, cabeção.

– Dessa vez o lance é sério, Nei. Olha o que ela mandou pra você.

Antes de se virar, Nei fala com o cliente.

– Quer queimar, bróder?

Boca estica o braço com algo parecido com presunto. O pedaço da peça de peito de peru defumando era a inicial, por onde a peça é amarrada pra ficar fechada, e mais um pouco, nada além de 100 gramas.

– Porra, pedaço de peito de peru defumado! Aí ela se jogou geral, Boca! Hoje vai dar trela! Pega uma vasilha na vizinha e guarda. Hoje vai dar trela!

Vira para o cliente. Pega um pedaço de algo que parece um sabonete. Esfrega sobre a pele dele. Ardência. Pra queimar, estancar pequenos cortes.

Carmezim escreve às quartas

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