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Flores em homenagem a vítimas são comuns em qualquer lugar do mundo. Mas essas que aparecem na foto acima levam um perfume especial.

Esse é o coração de Oslo, capital da Noruega e palco do ato mais cruel na Europa desde a Segunda Guerra Mundial. A história todos já sabem: 77 mortos em um duplo atentado promovido por um fundamentalista de direita, islamófobo e cruel.

Fui à Noruega cobrir as consequências dos ataques e passo aqui minha impressão depois de quatro dias de andanças intensas, entrevistas longas, conversas informais e observações pessoais.

A reação dos noruegueses ao atentado é louvável. “Vamos responder com flores e abraços, com mais abertura, mais democracia, não com mais polícia”, foi o que me disse o presidente do Partido Trabalhista, instituição que comanda o país e o principal alvo de Anders Behring Breivik, um homem de 32 anos, branco e de olhos azuis.

A ideia seria apenas um pensamento de um político em busca de seguidores, não fosse repetida e realmente sentida pela população em geral.

Gente comum de Oslo a Utoya – ilha a uma hora da capital que presenciou a matança de 69 adolescentes – manifestava o mesmo desejo, com diferentes palavras.

Reagir como os americanos, com mais vigilância, mais armas e restrição às liberdades seria absorver parte do modelo de sociedade separatista defendido pelo terrorista.

Seria assumir que existe uma guerra entre brancos e muçulmanos. Seria agir pelo medo e, portanto, tornar-se realmente vítima do terror.

Não há melhor posição do que defender a democracia e intensificar a harmonia interna e externa.

A Noruega está de parabéns. Knut, um jovem de 22 anos que estava na ilha e se salvou nadando do assassino de seis de seus grandes amigos, é exemplo de compreensão: “Vamos continuar lutando pela sociedade que queremos, intensificar a necessidade de vivermos em um lugar multicultural, com as diversas religiões convivendo em harmonia, com as diferentes ideias e costumes respeitados.”

Ceder sobre isso seria assinar o atestado de derrota.

Knut era um dos cerca de 500 jovens que estavam na ilha para se divertir e discutir política no 60º Acampamento dos Jovens do Partido Trabalhista. A mãe dele escapou do carro bomba que explodiu a sede do governo, mas perdeu sua companheira de escritório. Leia a história deles aqui.

Daquele tradicional acampamento de verão sairá o futuro político desse país nórdico. Pessoas como o atual primeiro ministro, Jens Stoltenberg, que naquela mesma ilhota nutriu suas concepções políticas e também suas amizades e amores.

Mas não nos enganemos. Talvez o fato de o terrorista ter sido um norueguês puro sangue tenha sido o motivo principal, ou pelo menos o fator agregador de todas as esferas da sociedade em torno da mesma reação.

E isso quem observa é garçom de um bar, um ciclista que carrega flores, um trio de filhas de africanos, uma ruiva que me deu carona a Utoya, uma recepcionista de hotel, um parlamentar, uma mãe de uma vítima, uma garota que tomava café…

E também uma vizinha do assassino, que acompanhou a infância daquela criança que brincava no parquinho em frente à sua casa junto com chilenos moreninhos, crianças super loiras, como ele, e também com os filhos de quatro famílias islâmicas que vivem num conjunto residencial extremamente tranquilo a oeste de Oslo, onde o monstro foi nutrido, não pelo ambiente, mas pelo mergulho insano expresso em sítios nazistas de internet.

Vítor Rocha escreve aos sábados e, excepcionalmente, nesta terça.

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