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Quando pessoas como Heidegger e João Pereira Coutinho concordam em uma coisa, a gente para um pouco para pensar a respeito.

Coutinho confessou em coluna recente que chez lui não há café da manhã sem jornais sobre a mesa. Heiddegger tinha feito uma frase famosa: chamou o habito de “oração dos intelectuais”.

Segui a mesma cartilha até dois dias atras, quando troquei as notícias pelos desenhos animados.

Não foi regressão: foi decisão.

Não acho ler jornal inútil. Acho inútil é acreditar no que prometem. A profissão ordena, e não só aos seus profissionais, a leitura de notícias. É imperativo estar no mundo, e o mundo, hoje, é um lugar a se ler.

Concordo, não mudo uma vírgula. Mas não é nas vírgulas do jornalismo que estou interessado. Pois não é entre essas vírgulas que o mundo está.

Os franceses têm um verbo útil: saisir. É algo entre capturar, captar, prender e congelar. Os jornais querem que creiamos que seu sistema é o ideal para a tarefa de saisir o mundo e devolvê-lo, legível, para nós.

Mas o que sinto, vejo e acompanho cada dia é que o mundo cada dia perde espaço nos jornais para os próprios jornais.

E concluir isso não tem nada de perspicaz: tem, apenas, de paciente. Concluo porque leio jornais há anos. É simplesmente obvio.

Por que vale a pena, então, dedicar tempo a isso?

Porque acho que ainda existe uma posição, que considero ilusória, sobre a importância de se ler jornais. Ou melhor: sobre a que nos leva ler jornais.

Jornais nos prometem o mundo. Mas o que entregam, penso, é mais e mais de si. Hoje temos um estado de excelência no tratamento da notícia. Produto tão bem acabado, ela virou tão notícia, mas tão notícia, que não parece ter sobrado muito além de sua dimensão noticiosa. Isto é: sua dimensão textual, dinâmica, efêmera, propagandística.

A noticia é de leitura fácil, pula no nosso colo com agilidade, dura pouco e tem intenções políticas. Seu título descontextualiza, seu início dá como fato a versão, ela faz de tudo para chamar a atenção mas bota a culpa naquilo que noticia. Notícias são sonsas, jornalistas são cínicos e o fato de elas serem muitas e eles, poucos, intensifica a percepção desses efeitos.

Por isso, alto lá, eu me disse a mim mesmo: há algo errado quando notícias se acumulam na nossa frente, barrando a nossa visão do mundo.

Diego Damasceno escreve às terças, mas hoje substitui Vítor Rocha, que hoje não veio trabalhar porque pegou uma virose.

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