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Num conto que Mia Couto escreveu, mas nunca publicou, uma mulher muito doente pede ao marido para lhe contar uma história que sossegue suas dores. “Quero que me fale numa língua desconhecida”, roga. O homem

começa por balbuciar umas palavras estranhas e sente-se ridículo como se a si mesmo desse provas da incapacidade de ser humano. Aos poucos, porém, vai ganhando mais à vontade nesse idioma sem regra. E ele já não sabe se fala, se canta, se reza. Quando se detém, repara que a mulher está adormecida, e mora em seu rosto o mais tranquilo sorriso. Mais tarde, ela lhe confesa: aqueles murmúrios lhe trouxeram lembranças de antes de ter memória. E lhe deram o conforto desse mesmo sono que nos liga ao que havia antes de estarmos vivos.

O trecho está no livro de ensaios E se Obama fosse africano?, lançado em 2009 pelo escritor moçambicano. Mia Couto resgatou a história para falar sobre línguas numa Conferência Internacional de Literatura. Volto a usá-la para estar aqui. Essa cena inventada me comoveu como algo que existiu e do qual fui testemunha.

Fiquei pensando em quanto tempo perco querendo por tudo ser entendida, mesmo sabendo que toda e qualquer explicação acaba sempre criando novos equívocos. Mas é mais forte do que eu.

Quis me libertar e, como a mulher moribunda, ouvir uma história numa língua que ainda não existe, e descansar aí, e adormecer, para sonhar que instaurou-se no mundo qualquer espécie de paz da qual faço parte. Ou então escrever, com palavras inventadas, um poema que não teria início, meio ou fim, feito bula de hipnose, feito oração bem repetida, feito cantiga de ninar, feito mantra, feito segredo. Se chegar esse tempo, prometo que volto para contar.  Por ora, lamento, só sei dizer deste modo.

Tatiana Mendonça escreve às sextas

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