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Com os jogos de futebol cada vez mais modorrentos, todas as esperanças vão para Copa da Rússia em 2018.

Não que eu espere melhora gradativa até lá – espero é piora, os times estão cada vez mais iguais no seu desejo. Tostão disse e eu repito: de diferente só há o Barcelona. De resto, a intenção é ser igual: seleções ou clubes, ninguém mais vê a originalidade como caminho para a vitória.

Donde então o brilho novo desta Copa? Dos intervalos.

Pois em 2018 farão 100 anos os dois primeiros filmes de Lev Koulechov. Ator, diretor, roteirista e teórico, antes dele não havia cursos de cinema (abriu o primeiro em Moscou). Via o cinema independente de seu conteúdo – procurou nele uma expressividade própria. Foi um dos primeiros a acreditar no poder simbólico e sugestivo da associação de imagens. Há um procedimento de montagem básico que leva seu nome.

A data marcará também os 120 anos do nascimento de Sergei Eisenstein, uma das pessoas que melhor compreendeu o que o cinema é (aí incluso o que pode e o que deve ser). É sua uma das mais citadas, admiradas e comentadas cenas de todos os tempos, filmada em Odessa. Teve influência maior em Godard e Glauber Rocha. Eisenstein dirigiu, deu aulas, escreveu e não há previsão para que deixe de ser assunto de novos livros, teses, congressos e descobertas no campo estético-formal-afetivo-artistico. Um monstro.

Não oposto, mas diferente dele, foi Dziga Vertov. Se Eisenstein era o teatro, a fórmula, o cálculo no cinema, Dziga era a fluidez, o imprevisto, a câmera como olho mais capaz de ver o mundo: cinema como descoberta. Não encontrei uma data fechada para citar Vertov, mas isso vem a calhar: seu gênio nunca esteve afeito a esta ideia de precisão. Marginal no centro, negou a ficção, e praticou um documentário anterior e posterior a tudo.

2018 será tempo, então, desses nomes voltarem ao noticiário. Que seja na seção de esportes, não na de artes ou obituários: que os melhores lances, os compactos, os gols da rodada sejam animados por essas maneiras de fazer cinema, de inventar imagens, ou de inventar sentidos nas imagens que já existem.

Que um gol da Ucrânia seja seguido da cara de decepção de Putin (Koulechov); que um passe errado da Holanda para a direita resulte num gol do Brasil à esquerda (Eisenstein); que a câmera possa mostrar o respeito genuíno pelo esporte com o qual os sul-coreanos entram em campo (Vertov).

Dessas e de outras maneiras mais: que o cinema vá ao futebol, na falta de um futebol de cinema.

***

Dedico este texto aos amigos Gabriela Quintela e Saymon Nascimento, co-autores dessa imaginação.

Diego Damasceno escreve às terças

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